quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Nova Estudiantina em Madrid, 1895

Uma nova estudantina é formada em Madrid, em Março de 1895.
Com cerca de 100 pessoas, tem em vista dar espectáculos em benefício das classes operárias.

 A Voz Pública, 6.º Anno, n.º 1512, de 13 de Março de 1895, p.1.

Tuna Compostelana em Portugal, 1895

Em 1895, a Tuna Compostelana veio a Portugal, passando por Coimbra, Porto, Braga e Viana, e regressando depois a Espanha.
Aqui ficam alguns artigos publicados sobre essa viagem.


A Voz Pública, 6.º Anno, n.º 1503, de 02 de Março de 1895, p.1.

A Voz Pública, 6.º Anno, n.º 1504, de 03 de Março de 1895, p.1.



A Voz Pública, 6.º Anno, n.º 1508, de 08 de Março de 1895, p.2.

domingo, 16 de setembro de 2018

Andar à Tuna, no Porto de 1890.


"Andar à Tuna" é uma expressão que ainda se usava em finais do séc. XIX, para designar aquelas pessoas que vagueavam pelas ruas, fugidas de casa.
A essas pessoas se atribuía igualmente a designação de "tunante", como vimos em artigo anterior.
Uma vez mais, são situações que ocorrem no Porto, onde esse tipo de terminologia tem maior longevidade.
Os casos que aqui apresentamos já não respeitam a crianças fugidas de casa, mas a senhoras, sendo que uma delas é uma criada (serviçal) que fugiu aos patrões e foi apanhada no meio de grevistas[1].


A República, I Anno, N.º 89 de 12 de Julho de 1890, p.1.

A República, I Anno, N.º 167 de 03 de Outubro de 




[1] Estamos, nesse ano de 1890, em plena efervescência républicana, atiçada pela questão do ultimatum inglês.

Tuna de Señoritas Espanholas no Porto, 1896


Sabemos bem que as estudantinas/tunas femininas não são coisa recente[1], sendo que as encontramos no séc. XIX quer em Espanha quer na América Latina[2], bem como em Portugal (embora com menos incidência).
Este é um desses casos, mas de um grupo que vem actuar a Portugal - mais precisamente ao Porto.
Não deixa de ser algo, porventura, inédito, dado que, no contexto social e cultural da época, grupos deste tipo não tinham a mesma facilidade em viajar que os homens.
Não se trata de um grupo estudantil, mas um das muitas estudantinas/tunas civis que se detectam no panorama tuneril há mais de 100 anos. Não foi possível averiguar a proveniência do grupo.

A Voz Pública, 7.º Anno, N.º 1816, de 05 de Março de 1896, p.2.





[1] SÁRRAGA, Félix O. Martín - Sociedad, Universidad, Mujer y Tuna a lo largo de la historia. Tvnae Mvndi, 2013-2017. [Em linha: http://www.tunaemundi.com/index.php/publicaciones/sabias/7-tunaemundi-cat/175-sociedad-universidad-mujer-y-tuna-a-lo-largo-de-la-historia]


[2] OROZCO, Adriana Meluk - La mujer en la tuna: Del balcón a la calle. I Congreso Iberoamericano de Tunas, Múrcia, 2012. [Em linha: https://issuu.com/tunaemundi/docs/la_mujer_en_la_tuna__del_balc_n_a_la_calle].

sábado, 8 de setembro de 2018

A Estudantina Portuense em Espanha , Abril de 1890

Actualizado a 16 de Setembro de 2018.

Era imperioso este artigo, no sentido de rever, corrigir e actualizar o que anteriormente já tinha sido publicado sobre o assunto, à luz de novos dados entretanto descobertos.

Com efeito, no artigo de 29 de Julho de 2016, sob o título "A Tuna da Estudantina Portuguesa em Madrid, Abril de 1890", defendeu-se, de entre 3 possibilidades possíveis, que a estudantina/tuna que tinha estado em Salamanca e Madrid, em Abril de 1890, seria, afinal a Estudantina da Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa.




REVOGA-SE essa possibilidade pelo dados investigados entretanto.

Trata-se da Estudantina (Tuna) Portuense.

 





Os periódicos consultados, especialmente o Jornal do Porto são, eles sim, claros e inequívocos na identificação da proveniência da estudantina (orquestra/tuna) que fez parte da comitiva académica que se deslocou a Espanha no âmbito da criação de uma Federação Escolar/Académica Ibérica.




 Jornal do Porto, XXXII Anno, N.º 82, de 08 de Abril de 1890, p.1.
Jornal do Porto, XXXII Anno, N.º 85, de 11 de Abril de 1890, p.1.
Jornal do Porto, XXXII Anno, N.º 86, de 12 de Abril de 1890, p.1


Como se pode verificar, estamos bem perante uma estudantina, grupo musical, oriundo do Porto. Outros artigos, publicados nos dias seguintes, reforçam essa evidência.

 

Mas por que razão se avançou que era uma estudantina de Lisboa (Escola Médico-Cirúrgica)?

 

Apontou-se nessa direcção, porque os periódicos referiam que o repertório era de grande qualidade e, por isso, teria de ser de um grupo já com algum trabalho prévio de ensaios e preparação.

Quando se avançou (quer na obra "Qvid Tvnae?" (2011-12) quer aqui no nosso artigo) que nessa altura (e descartando imediatamente Coimbra), que só a Estudantina da Escola Médica de Lisboa estaria em condições de o fazer (e porque vão alunos de Lisboa na grande comitiva académica), não se tinha a informação inequívoca de que a Estudantina Portuense (Tuna Portuense) já estivesse formada (quando tudo indicava que datava de 1891 - embora nunca com provas directas).

Por outro lado, os artigos dos periódicos espanhóis, embora se referissem a "estudiantina" que saiu do Porto, deram algum destaque a descrições sobre os estandartes de Lisboa, a estudantes da escola médica da capital, a entrega de flores a estudantes de Lisboa.....para além de mais do que uma vez termos encontrado a referência ao "estandarte da escola  de medicina de Lisboa e o da sociedade musical a que pertencia a estudantina".

O que aqui é decisivo é saber-se que a Estudantina Portuense fora fundada algum tempo antes e que os periódicos locais (do Porto) referem que ela irá a Espanha (Salamanca e Madrid). Foi essa informação clara que fez pender o prato da balança.

 

Mas a Estudantina da Escola Médica de Lisboa, afinal, não esteve também presente?

 

Essa possibilidade não se descarta. Pode ter estado. Pode até ter participado (especialmente na parte de fados), mas, como mais abaixo apresentamos, o repertório é claramente identificado com o que a Estudantina Portuense já tinha apresentado no Porto, mo mês anterior.  Mas não se descarta, igualmente, ter havido, da parte dos jornalistas de Lisboa alguma confusão.


Revista Occidente, 13º Anno, Volume XII, Nº 409, de 01 de Maio de 1890, p. 99 e 101.



A Estudantina Portuense

 

A determinado ponto, o artigo, cuja teoria apontada agora se refuta, referia a existência de 3 sub-grupos, dentro da estudantina/tuna que tocou em Espanha (Tuna, Bohémia e Grupo).  Eis aqui esse artigo, então publicado na altura.


El Imparcial, Ano XXIV, N.º 8217, de 13 de Abril de 1890, p.3

E poderá isso encontrar explicação pelo facto de se saber que Estudantina Portuense, formada pouco tempo antes (mais abaixo apresentamos prova disso), era composta por académicos oriundos de 3 grupos já existentes. 

Sabemos que existia, nessa altura, a Estudantina Bohémia Académica (ligada ao Colégio de São João da Foz), que existia também uma Tuna Académica, e que existiam outras estudantinas e troupes, como é o caso da Estudantina "Grupo Académico".

A "Bohémia Académica" é uma estudantina que encontramos já formada em 1889 (sendo a mais antiga referência a estudantinas escolares no P,orto) e com actividade continuada pelos anos seguintes. Eis aqui apenas uma dessas evidências:

Jornal do Porto, XXXI Anno, N.º 14, de 16 de Janeiro de 1889, p.1.

A Tuna Académica, encontrámo-la em Fevereiro de 1890, sem conseguirmos obter, à data, dados adicionais:

Jornal do Porto, XXXII Anno, N.º 32, de 06 Fevereiro de 1890, p.1.

Outras estudantinas são detectadas, como é o caso da Estudantina dos irmãos Antunes (que exite desde pelo menos 1888),  temos também várias referências a "Estudantina Portuense", mas nunca identificadas, entre outros grupos com denominação "troupe".

Só não conseguimos, portanto, identificar inequivocamente "O GRUPO" (de que fala o periódico espanhol). Mas sabemos tratar-se de uma estudantina. Com efeito, a Tuna Académica e o Grupo Académico são claramente identificados como estudantinas, num artigo de Abril de 1891, quando participam num concerto no teatro D. Afonso (Porto):


 A República 1.º Anno, N.º 287, de 09 de Abril de 1891, p.2. 

 

CONCLUSÕES

A Estudantina Portuense, nasceu, segundo reza o periódico que o narra, da junção de elementos oriundos de 3 grupos existentes no Porto, e todos os membros eram estudantes.

É um interessante dado, se compararmos com o artigo espanhol que fala da Estudantina Portuense que se dividia entre Tuna, Bohémia e Grupo, signficando que, apesar de formarem um conjunto (a Estudantina Portuense), ainda apresentavam peças em separado (que executariam nos grupos anteriores a que tinha pertencido - ou ainda pertenceriam).


Jornal do Porto, XXXII Anno, N.º 68, de 21 de Março de 1890, p.2.

Sim, é uma informação dada em 1.ª mão e a primeira prova documental que fala da fundação da Estudantina Portuense.



Pelo que é dado ler, poderemos perfeitamente intuir, também, que os elementos que compunham inicialmente a Estudantina Portuense se manteriam ao mesmo tempo no seu grupo de origem e na Estudantina Portuense. É possível. O que é claro é que a qualidade apresentada resulta porque todos já tinham percurso em grupo anterior (e cujo repertório e estilo musical era semelhante), pelo que se percebe como tão rapidamente se criou o grupo, sem precisar de meses de ensaios.

O que é claro também, é que o repertório apresentado é identificável como pertencente à Estudantina Portuense e não a outro grupo de Coimbra ou Lisboa, senão vejamos:


Repertório da Estudantina Portuense, no sarau que deu no Teatro S. João (no Porto), em 28 de Março de 1890:


Jornal do Porto, XXXII Anno, N.º 74, de 28 de Março de 1890, p.2.

Repertório da Estudantina Portuense, no sarau que deu em Madrid, no teatro Príncipe Alfonso:


El Imparcial, Ano XXIV, N.º 8216, de 12 de Abril de 1890, p.2

Como se verifica, comparando, os temas repetem-se, comprovando inequivocamente que se trata de uma estudantina do Porto e não de outra cidade.



Significa isto tudo que a Tuna do OUP (a Tuna Universitária do Porto) nasceu, portanto, em Março de 1890 (ou mesmo antes)? 

É possível. Neste momento, está a ser meticulosamente investigado.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Memória Portuense de TUNANTE - 1889 e 1890.


TUNANTE - emprego castiço que se vai perdendo na memória.

Em "QVID TVNAE?", a primeira obra a fazer o levantamento da evolução da palavra Tuna - e outras palavras daí derivadas, em dicionários/enciclopédias, verifica-se que palavra "tunante" está claramente ligada à ideia de vadiagem, ociosidade, malandrice, entre outros significados mais ou menos sinónimos. A seguir, transcrevemos, da obra referida[1], o significado que "Tunante" foi apresentando em diversas publicações (não todas), apenas evidenciando a palavra "tunante" (omitindo as outras), para não tornar extensa a exposição.

1739 - Real Academia Española, Diccionario de Autoridades, p. 375:
Tunante. part. act. del verbo tunar. El que tuna, ò anda vagando. Lat. vagus, vel vagam vitam agens. ESTEB. cap. 4. Como hombre mas experimentado, con tono fraternal nos informo en la ceremonia, y puntos de la vida tunante.
1879 - Rafael Bluteau (acresc. António de Moraes Silva), Diccionário da Lingua Portugueza, T. II,        L‑Z, p. 497.
Tunante, f. m. o embusteiro, vagamundo que anda vadiando, e comendo o que póde com enganos, e dolos.
1899 - Real Academia Española, Diccionario de Autoridades, p. 991 (reed. 1914, p. 1017, 2):
Tunante. p. a. de Tunar. Que tuna. Ù.t.c.s. || 2 adj. Pícaro, bribón, taimado. Ù.t.c.s.
1936 – 1960 - Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, Editorial Enciclopédia                                            Limitada, Lisboa e Rio de Janeiro, Vol. XXXIII:
TUNANTE, adj. e s. 2 gén. Vadio, ocioso; que anda à tuna: “Andaríamos todos, os da minha ronda e eu,…como tunantes de Goya… rebuçados em longas capas negras, que nos cobririam a cara…”, Ramalho Ortigão, Últimas Farpas, cap. 11, p. 188; “Um bêbado tunante, / Pálido, e escalavrado”, Guerra Junqueiro, A Morte de Dom João, III, 3, p. 165; “Numa tasca beberricámos, pois seria imperdoável que tunantes não prestassem seu preito a Baco”, Aquilino Ribeiro, Uma luz ao Longe, cap. 9, p. 180.
2001 - Academia das Ciências de Lisboa e Fundação Calouste Gulbenkian, Dicionário de Língua Portuguesa Contemporânea, Editorial Verbo, II Vol., G‑Z, p. 3652:
Tunante1. Adj. m. e f. (Do cast. tunante) 1. Que anda na malandragem, na vadiagem. ≈ VAGABUNDO. 2. Que engana ou ludibria terceiros. ≈ EMBUSTEIRO, TRAMPOLINEIRO, TRAPACEIRO. 3. Designação da pessoa, em especial do estudante, que faz parte de uma tuna ou agrupamento musical.(…)
Tunante2. s. m. e f. (Do cast. tunante). 1. Pessoa que anda na vadiagem, na ociosidade. ≈ TUNA, VADIO. Pessoa que engana ou ludibria terceiros. ≈ EMBUSTEIRO, MAROTO, TRAPACEIRO. 3. Pessoa, especialmente estudante, que faz parte de uma tuna musical (…).
2003 - Instituto António Houaiss de Lexicografia e Banco de Dados da Língua Portuguesa, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Temas e Debates, Lisboa, T. III, Merr‑Zzz, p. 3606:
Tunante adj. 2g.s.2g (1789 cf. MS) 1 que ou quem anda à tuna, vadiando (diz‑se especialmente de estudante), vagabundo, tunador. 2 p. ext. que ou quem faz trapaças, embusteiro, trampolineiro. 3 HIP que ou quem tem má índole (diz‑se de animal). 5 TAUR (1899) que ou o que já conhece a lide e revela má intenção (diz‑se de touro).

Em Portugal, o termo teve, pelo menos desde o séc. XIX, um sentido claramente pejorativo.
Hoje em dia, já quase caiu em desuso, sendo "agora" reabilitado pelas tunas académicas, mas com outro significado.
Contudo, na região norte (periferia do Porto, nomeadamente) ainda há quem utilize ou se lembre de ser utilizado "tunante", empregando-se para classificar outrem como malandro, maroto, mal-comportado, trapaceiro, vadio ou vagabundo.
Segundo testemunha o meu amigo Eduardo Coelho, era ainda corrente, há algumas décadas, nessa zona do país, alguém se referir a outro (sobretudo garotos) dessa forma:
- Ah, seu tunante! [Ah, seu canalha / seu traste, seu malandro...].

Não deixa de ser curioso que a palavra "canalha", usada para definir alguém como pessoa falsa, que não presta (como criminoso, até); também seja utilizada, como substantivo colectivo, para nos referirmos a um grupo crianças pequenas.
Ex. 
A canalha está a brincar na rua [As crianças estão a brincar....]
ou 
A minha canalha está a dormir [os meus filhos estão a dormir]

Por sua vez, "tunante", tal como "canalha", aqui a ser utilizada para mencionar crianças, mas crianças vagabundas, que andam a vadiar na rua porque fugiram de casa dos pais.

Nota: por vezes também se usa "canalha" como substantivo comum singular para designar uma só criança (mas é mais raro), usualmente do sexo masculino: "Aqui o meu canalha [filho/filhote] gosta de legumes!"

E é isso mesmo que aqui se traz como assunto: o facto de surgir em periódicos, o termo "Tunante" (dando título aos artigos), para relatar precisamente a prisão de jovens que fugiram de casa e deambulavam pelas ruas e foram apanhados (para depois serem entregues, pelas autoridades, aos pais).

Jornal do Porto, XXXI Anno, N.º 218, de 14 de Setembro de 1889, p.1.

Jornal do Porto, XXXI Anno, N.º 231, de 29 de Setembro de 1889, p.2.

 Jornal do Porto, XXXII Anno, N.º 57, de 8 de Março de 1890, p.2.

 Jornal do Porto, XXXII Anno, N.º 48, de 26 de Fevereiro de 1890, p.2.



É um caso assaz curioso, pela forma como um jornal utiliza tal expressão  (e não outra), e que se deve precisamente ao facto do termo ter prevalecido no uso quotidiano do Porto (e sua região), contrariamente a Lisboa, por exemplo, onde não se encontra tal designação para estes casos.

Fica esta curiosidade sobre um termo que tantos conhecem, mas certamente desconheciam a sua história e significado original.





[1] COELHO, Eduardo, SILVA, Jean-Pierre, TAVARES, Ricardo, SOUSA, João Paulo - QVID TUNAE? A Tuna Estudantil em Portugal. Euedito, 2011-12.

sábado, 14 de julho de 2018

A palavra Tuna (andar à tuna) - Primeira referência num dicionário.


A palavra Tuna (andar à tuna) - Primeira referência num dicionário.



A primeira vez que a palavra "Tuna"  aparece grafada num dicionário, com o significado de vida "holgazana" (vadiagem, ócio, vagabundagem - maganear: "andar à boa vida") é num dicionário português, em 1713.
Este dado é, demasiadas vezes, ignorado por uma comunidade internacional tuneril, a começar pelos seus investigadores, muito centrada na matriz da diáspora espanhola (que constitui a esmagadora maioria das tunas estudantis no mundo).



Para quem não pertence a esse universo, poderá, porventura, cair no equívoco de, ao ler os estudos existentes e diversas publicações que aparecem pela Net sobre o assunto, ficar a pensar que o vocábulo "Tuna", com o sentido de vadiagem e vida livre e de folguedos, aparece inicialmente no Diccionario de Autoridades ou qualquer outro em Espanha. 
Aliás, o mesmo risco corre a comunidade Hispano-americana (dado que, como é natural, lê preferencial, e quase exclusivamente, o que vem publicado na língua de Cervantes - onde esta informação está omissa).

Portanto, em abono de um esclarecimento correcto, holístico e isento, que elucide qualquer pessoa, sejam tunos ou não, independentemente da sua geografia, fica aqui essa informação:

A primeira vez que o termo "Tuna" surge num dicionário, ligado a "andar à tuna" ("vida holgazana y libre"), é em 1713, na obra de Rafael Bluteau:  Vocabulario Portuguez e latino (Volume VIII de T-Z), p. 325:

"TUNA. Andar à tuna. Andar maganeando[1]. Vid. Maganear. Vid. Tonante."



Vocabulario Portuguez e latino (Volume VIII de T-Z) de 1713. Rafeal Bluteau Edição impressa de 1721, p. 32.


Vocabulario Portuguez e latino (Volume 08 de  Ta Z). Bluteau, Rafael (1713). Edição impressa de 1721.


O que é muito interessante é que, para além de remeter para "Tonante", o mesmo dicionário estabelece claramente que "Tonante" está co-relacionado com "Tunante" (apresenta-os como sinónimos, até), com o significado de "andar à tuna" que, no contexto da época, em castelhano, mas também em português, remete para burlão, embusteiro (o significado de "embuste", volta a ser sublinhado na edição de 1789 do mesmo Rafael Bluteau), no intuito de arranjar sustento (seja como simples pedinte, seja através de enganos, entre outros) e que, na língua francesa aponta para "Truand" (pedinte, vadio, bandido), estabelecendo uma clara relação com a origem de Tuna em "Thune", conforme tese explicada e documentada em Qvid Tvnae? (2012).


Apresentamos, de seguida, a parte desse dicionário que apresenta o significado de maganear (e família), na edição portuguesa de 1728,  que expressa o sentido de "andar à tuna", com uma carga pejorativa (andar "à boa vida" nas tavernas, com prostitutas; ser pessoa de má índole, pouco recomendável pela vida libertina que leva):
Vocabulário Portuguez e Latino, Rafael Bluteau - volume 5, 1728, p. 245.

Em 1739, surge no Diccionário de Autoridades (Espanha), com o tal significado de "vida holgazana, libre y vagamunda" e com a palavra Tunar e Tunante ligadas a esse significadode andar a vaguear de lugar em lugar

Em 1789, consta do Dicionário da Língua Portugueza (sucedâneo dos anteriores dicionários portugueses).



Diccionario da Lingua Portugueza (Reformado e Accrescentado por António Moraes Silva). Tomo II, L-Z. Lisboa, 1789.


Interessante, igualmente, é que, ao contrário do que sucede com o Diccionario de Autoridades (Real Academia Espanhola) de 1884, onde a "vida holgazana" surge como a segunda acepção, depois de primeiramente se referir ao fruto e, mais tarde à planta (figueira da Índia - um cacto que produz um fruto similar a um figo), no dicionário de Rafale Bluteau (1713), a primeira acepção é "andar à tuna /maganeando".
Significará isso, porventura, que a acepção de "andar à Tuna", em Portugal, sempre teve precedente de antiguidade sobre o significado de planta/fruto (Figueira da Índia), ou seja que o termo "Tuna" esteve primeiramente ligado ao "tunar" e só depois se descobre e insere o nome do fruto/planta que os espanhóis descobriram na América.

Nota: No país vizinho, e segundo a investigação de Félix O. Martín Sárraga[2], o famoso fruto chamado de "Tuna" (nopal), já teria constância num dicionário de 1609, de Hiersome Victor Bolonou[3], editado em Genebra.
Curiosamente, enquanto no país vizinho, o termo consta inicialmente com a designação do fruto e só depois (1739), também, a planta; em Bluteau já tinha ambos significados.
Segundo o alemão Alexander von Humboldt, geógrafo e naturalista, o termo original seria "opuntia", palavra oriunda da língua dos Taínos (povo da região das Bahamas, Antilhas e Caribe) absorvida pela língua espanhola por volta de 1500.


No ano de 1831, temos o 2.º tomo do Diccionário da Língua Portugueza de Moraes Silva, que contém a palavra Tuna e Tunante. Nada de novo, senão que o termo "tunante" expressa mais claramente o que já tínhamos referido: andar vadiando e comendo o que pode com enganos e dolos.



Diccionário da Língua Portugueza. Moraes Silva. Tomo II, F-Z. Lisboa, 1831.

Diccionário da Língua Portugueza. Moraes Silva. Tomo II, F-Z. Lisboa, 1831, p. 847.


No Brasil, em 1832, no Diccionário de Língua Brasileira, de Luiz Maria da Silva Pintoo significado aponta igualmente para a vadiagem, vida de ócio, ou seja "andar à tuna", sendo que "Tunante" vai no mesmo sentido sinónimo: embusteiro, vadio.
A novidade é que o fruto/planta Figueira da Índia passa a ter a designação de "Tunal"


Diccionario da língua brasileira. Pinto, Luiz Maria da Silva, 1832.

No ano de 1843, o Diccionário Academia Usual (da Real Academia Española), p. 723, não apresenta novas singificâncias, mas surge com o término "Tunanton", como sinónimo de "tunante" (aquele que anda à tuna).

No ano de 1849, surge também a palavra Tuna, associada à vadiagem a ser mandrião e a palavra Tunante como aquele que "tuna", ou seja que é mandrião, embusteiro, vadio, vagamundo, miliante (parasita, até). É o que podemos ler no Novo Diccionário da Língua Portugueza, obra de Eduardo Faria.


Novo Diccionário da Língua Portugueza por Eduardo Faria .
Vol. III. Typographia Lisbonense. Lisboa, 1849.

Novo Diccionário da Língua Portugueza por Eduardo Faria .Vol. III. Typographia Lisbonense. Lisboa, 1849, p. 470.



Um outro significado, bem conhecido em Portugal, sinónimo de "andar à tuna" é o de "vida airada" (sem preocupações, na "boa vai ela". Assim ainda se entendia, por exemplo, sobre os estudantes de Coimbra que, e passamos a citar:

"... vivendo por tanto fora da clausura e da communidade dos Collegios, entregavam-se à vida airada, à tuna, nome talvez derivado dos nocturni grassatores, que andavam provocando rixas com os burguezes, fiados na impunidade de um foro privilegiado [Foro Académico]" 
(In Theophilo Braga - História da Universidade de Coimbra. Tomo I. Lisboa, 1892, p. 83.)

Não maçamos mais o leitor com a história da palavra tuna nos dicionários, bastando que, caso esteja interessado, consulte a obra "Qvid Tvnae?", onde o toda esse caminho está devidamente catalogado até aos dias de hoje.


Portanto, e resumindo, a palavra Tuna, ainda antes de surgir em qualquer dicionário em língua espanhola com o sentido de "andar à tuna", de "vida vagamunda" .... já tinha surgido em dicionário português, e com significativa frequência em vários outros vários dicionários portugueses e do Brasil . 


Fica este apontamento que, como referido, é demasiadas vezes omitido, mesmo quando os estudos publicados estão mais vocacionados para falantes do mundo hispânico.
A história da Tuna não pode ficar compartimentada por fronteiras geográficas ou culturais, já que é um fenómeno que atravessa continentes. Um património que inclui,  portanto, a realidade lusitana e, assim sendo, deve ser tida em conta, quando se publica para toda essa comunidade internacional.

Certamente que um artigo redigido sob o título "É em 1890 que palavra Estudantina surge, num dicionário, associada a grupos musicais de estudantes.", estaria incorrecto. Incorrecto porque surge primeiro em Espanha esse significado. Portanto, para evitar que o título induzisse em erro, colocar "em Portugal" ou "num dicionário português" seria essencial, independentemente do público alvo.
O mesmo se aconselha aos artigos publicados por nuestros hermanos, sobre uma realidade geográfica específica.







[1] O significado de maganeando é o de vadiar. Vid. Vocabulário Portuguez & Latino, Rafael Bluteau - volume 5, 1728, p. 245.
[2] Tuna, significado del vocablo a través del tiempoTvnae Mvndi, 2015 [Em linha: http://tunaemundi.com/index.php/component/content/article/7-tunaemundi-cat/555-tuna-significado-del-vocablo-a-traves-del-tiempo]. Ver também La palabra 'Tuna' no significaba lo mismo en el siglo XVIII que en la actualidadTvnae Mvndi, 2012. [Em linha: http://tunaemundi.com/index.php/publicaciones/sabias/1159-la-palabra-tuna-no-significaba-lo-mismo-en-el-siglo-xviii-que-en-la-actualidad].
[3] Tesoro de las tres lenguas francesa, italiana y española. Genève, Philippe Albert &Alexandre Pernet, 1609, pp. 605.

BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA: COELHO, Eduardo, SILVA, Jean-Pierre, TAVARES, Ricardo, SOUSA, João Paulo - "QVID TUNAE? A Tuna Estudantil em Portugal", Porto (2011), Euedito. ISBN 978-989-97538-0-8