sábado, 14 de julho de 2018

A palavra Tuna (andar à tuna) - Primeira referência num dicionário.


A palavra Tuna (andar à tuna) - Primeira referência num dicionário.



A primeira vez que a palavra "Tuna"  aparece grafada num dicionário, com o significado de vida "holgazana" (vadiagem, ócio, vagabundagem - maganear: "andar à boa vida") é num dicionário português, em 1713.
Este dado é, demasiadas vezes, ignorado por uma comunidade internacional tuneril, a começar pelos seus investigadores, muito centrada na matriz da diáspora espanhola (que constitui a esmagadora maioria das tunas estudantis no mundo).



Para quem não pertence a esse universo, poderá, porventura, cair no equívoco de, ao ler os estudos existentes e diversas publicações que aparecem pela Net sobre o assunto, ficar a pensar que o vocábulo "Tuna", com o sentido de vadiagem e vida livre e de folguedos, aparece inicialmente no Diccionario de Autoridades ou qualquer outro em Espanha. 
Aliás, o mesmo risco corre a comunidade Hispano-americana (dado que, como é natural, lê preferencial, e quase exclusivamente, o que vem publicado na língua de Cervantes - onde esta informação está omissa).

Portanto, em abono de um esclarecimento correcto, holístico e isento, que elucide qualquer pessoa, sejam tunos ou não, independentemente da sua geografia, fica aqui essa informação:

A primeira vez que o termo "Tuna" surge num dicionário, ligado a "andar à tuna" ("vida holgazana y libre"), é em 1713, na obra de Rafael Bluteau:  Vocabulario Portuguez e latino (Volume VIII de T-Z), p. 325:

"TUNA. Andar à tuna. Andar maganeando[1]. Vid. Maganear. Vid. Tonante."



Vocabulario Portuguez e latino (Volume VIII de T-Z) de 1713. Rafeal Bluteau Edição impressa de 1721, p. 32.


Vocabulario Portuguez e latino (Volume 08 de  Ta Z). Bluteau, Rafael (1713). Edição impressa de 1721.


O que é muito interessante é que, para além de remeter para "Tonante", o mesmo dicionário estabelece claramente que "Tonante" está co-relacionado com "Tunante" (apresenta-os como sinónimos, até), com o significado de "andar à tuna" que, no contexto da época, em castelhano, mas também em português, remete para burlão, embusteiro (o significado de "embuste", volta a ser sublinhado na edição de 1789 do mesmo Rafael Bluteau), no intuito de arranjar sustento (seja como simples pedinte, seja através de enganos, entre outros) e que, na língua francesa aponta para "Truand" (pedinte, vadio, bandido), estabelecendo uma clara relação com a origem de Tuna em "Thune", conforme tese explicada e documentada em Qvid Tvnae? (2012).


Apresentamos, de seguida, a parte desse dicionário que apresenta o significado de maganear (e família), na edição portuguesa de 1728,  que expressa o sentido de "andar à tuna", com uma carga pejorativa (andar "à boa vida" nas tavernas, com prostitutas; ser pessoa de má índole, pouco recomendável pela vida libertina que leva):
Vocabulário Portuguez e Latino, Rafael Bluteau - volume 5, 1728, p. 245.



Ainda antes de surgir o significado de "vida holgazana y libre", num dicionário espanhol (Gran Diccionario Clásico de la Lengua Española 1846-47 / Diccionario enciclopédico de la lengua española, 1855)  consta do Dicionário da Língua Portugueza de 1789, sucedâneo dos anteriores dicionários portugueses.



Diccionario da Lingua Portugueza (Reformado e Accrescentado por António Moraes Silva). Tomo II, L-Z. Lisboa, 1789.


Interessante, igualmente, é que, ao contrário do que sucede com o Diccionario de Autoridades (Real Academia Espanhola) de 1884, onde a "vida holgazana" surge como a segunda acepção, depois de primeiramente se referir ao fruto e, mais tarde à planta (figueira da Índia - um cacto que produz um fruto similar a um figo), no dicionário de Rafale Bluteau (1713), a primeira acepção é "andar à tuna /maganeando".
Significará isso, porventura, que a acepção de "andar à Tuna", em Portugal, sempre teve precedente de antiguidade sobre o significado de planta/fruto (Figueira da Índia), ou seja que o termo "Tuna" esteve primeiramente ligado ao "tunar" e só depois se descobre e insere o nome do fruto/planta que os espanhóis descobriram na América.

Nota: No país vizinho, e segundo a investigação de Félix O. Martín Sárraga[2], o famoso fruto chamado de "Tuna" (nopal), já teria constância num dicionário de 1609, de Hiersome Victor Bolonou[3], editado em Genebra.
Curiosamente, enquanto no país vizinho, o termo consta inicialmente com a designação do fruto e só depois (1739), também, a planta; em Bluteau já tinha ambos significados.
Segundo o alemão Alexander von Humboldt, geógrafo e naturalista, o termo original seria "opuntia", palavra oriunda da língua dos Taínos (povo da região das Bahamas, Antilhas e Caribe) absorvida pela língua espanhola por volta de 1500.


No ano de 1831, temos o 2.º tomo do Diccionário da Língua Portugueza de Moraes Silva, que contém a palavra Tuna e Tunante. Nada de novo, senão que o termo "tunante" expressa mais claramente o que já tínhamos referido: andar vadiando e comendo o que pode com enganos e dolos.



Diccionário da Língua Portugueza. Moraes Silva. Tomo II, F-Z. Lisboa, 1831.

Diccionário da Língua Portugueza. Moraes Silva. Tomo II, F-Z. Lisboa, 1831, p. 847.


No Brasil, em 1832, no Diccionário de Língua Brasileira, de Luiz Maria da Silva Pintoo significado aponta igualmente para a vadiagem, vida de ócio, ou seja "andar à tuna", sendo que "Tunante" vai no mesmo sentido sinónimo: embusteiro, vadio.
A novidade é que o fruto/planta Figueira da Índia passa a ter a designação de "Tunal"


Diccionario da língua brasileira. Pinto, Luiz Maria da Silva, 1832.

No ano de 1849, surge também a palavra Tuna, associada à vadiagem a ser mandrião e a palavra Tunante como aquele que "tuna", ou seja que é mandrião, embusteiro, vadio, vagamundo, miliante (parasita, até). É o que podemos ler no Novo Diccionário da Língua Portugueza, obra de Eduardo Faria.


Novo Diccionário da Língua Portugueza por Eduardo Faria .
Vol. III. Typographia Lisbonense. Lisboa, 1849.

Novo Diccionário da Língua Portugueza por Eduardo Faria .Vol. III. Typographia Lisbonense. Lisboa, 1849, p. 470.



Um outro significado, bem conhecido em Portugal, sinónimo de "andar à tuna" é o de "vida airada" (sem preocupações, na "boa vai ela". Assim ainda se entendia, por exemplo, sobre os estudantes de Coimbra que, e passamos a citar:

"... vivendo por tanto fora da clausura e da communidade dos Collegios, entregavam-se à vida airada, à tuna, nome talvez derivado dos nocturni grassatores, que andavam provocando rixas com os burguezes, fiados na impunidade de um foro privilegiado [Foro Académico]" 
(In Theophilo Braga - História da Universidade de Coimbra. Tomo I. Lisboa, 1892, p. 83.)


Portanto, e resumindo, a palavra Tuna, ainda antes de surgir em qualquer dicionário em língua espanhola com o sentido de "andar à tuna", de "vida vagamunda" .... já tinha surgido em vários dicionários portugueses e do Brasil. 


Fica este apontamento que, como referido, é demasiadas vezes omitido, mesmo quando os estudos publicados estão mais vocacionados para falantes do mundo hispânico.
A história da Tuna não pode ficar compartimentada por fronteiras geográficas ou culturais, já que é um fenómeno que atravessa continentes. Um património que inclui,  portanto, a realidade lusitana e, assim sendo, deve ser tida em conta, quando se publica para toda essa comunidade internacional.

Certamente que um artigo redigido sob o título "É em 1890 que palavra Estudantina surge, num dicionário, associada a grupos musicais de estudantes.", estaria incorrecto. Incorrecto porque surge primeiro em Espanha esse significado. Portanto, para evitar que o título induzisse em erro, colocar "em Portugal" ou "num dicionário português" seria essencial, independentemente do público alvo.
O mesmo se aconselha aos artigos publicados por nuestros hermanos, sobre uma realidade geográfica específica.







[1] O significado de maganeando é o de vadiar. Vid. Vocabulário Portuguez & Latino, Rafael Bluteau - volume 5, 1728, p. 245.
[2] Tuna, significado del vocablo a través del tiempoTvnae Mvndi, 2015 [Em linha: http://tunaemundi.com/index.php/component/content/article/7-tunaemundi-cat/555-tuna-significado-del-vocablo-a-traves-del-tiempo]. Ver também La palabra 'Tuna' no significaba lo mismo en el siglo XVIII que en la actualidadTvnae Mvndi, 2012. [Em linha: http://tunaemundi.com/index.php/publicaciones/sabias/1159-la-palabra-tuna-no-significaba-lo-mismo-en-el-siglo-xviii-que-en-la-actualidad].
[3] Tesoro de las tres lenguas francesa, italiana y española. Genève, Philippe Albert &Alexandre Pernet, 1609, pp. 605.

BIBLIOGRAFIA DE REFERÊNCIA: COELHO, Eduardo, SILVA, Jean-Pierre, TAVARES, Ricardo, SOUSA, João Paulo - "QVID TUNAE? A Tuna Estudantil em Portugal", Porto (2011), Euedito. ISBN 978-989-97538-0-8

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Museu Fonográfico Tuneril - Visita guiada.

Uma visita ao MFT (Museu Fonográfico Tuneril) e ao acervo do seu principal dinamizador, Jean-Pierre Silva.
O MFT é uma iniciativa ímpar no mundo das tunas, a nível mundial. Um projecto que merece ser apoiado, e acarinhado, por toda a comunidade das tunas nacionais, e seguido o exemplo noutros países com tunas académicas.







sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Legajos de Tuna n.º 2 - Museu Fonográfico Tuneril. Promover e preservar a memória.

Capa da 2.ª edição da revista


Documento completo:
https://issuu.com/legajosdetuna/docs/legajos_de_tuna._n___2



PORTUGAL

Legajos de Tuna n.º 2, Dezembro de 2017, p. 51

Legajos de Tuna n.º 2, Dezembro de 2017, p. 52

Legajos de Tuna n.º 2, Dezembro de 2017, p. 53

Legajos de Tuna n.º 2, Dezembro de 2017, p. 54

Legajos de Tuna n.º 2, Dezembro de 2017, p. 55







quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Memórias Radiofónicas - Tuna, a "Menina da Rádio".

Hoje pode parecer banal. Há uns anos, contudo, não apenas era raro, como raros os programas exclusivamente dedicados a Tunas. 

Foi com o "Noite de Tunas", em 1993, produzido pelo Ricardo Tavares, que surge o primeiro programa radiofónico inteiramente dedicado às tunas. Uma iniciativa pioneira, mas igualmente arriscada, isto quando sabemos que, até 1993, inclusive, a discografia disponível era escassa (salvo meia dúzia de discos vinil dos anos 6o/70, existiam, de acordo com os dados do MFT - Museu Fonográfico Tuneril, cerca de 13 títulos editados - e nem todos, porventura, disponíveis ali à mão).

Desbravado o caminho, e com o crescimento do fenómeno e da discografia disponível, a Tuna passou a poder marcar mais vezes presença na telefonia.
Em meados dos anos 1990, e até com o sucesso da Mulher Gorda (do álbum "Serenatas das Fitas", da E.U.L.), a Tuna foi, durante algum tempo, a "menina da rádio".
Pegando na letra do fado do estudante, para falar da tuna nas ondas hertezianas, poderíamos cantar:
"[va] gosto à gente ouvi-l[a], até,
na radio-telefonia"

Hoje, na verdade, é raro ouvir-se uma tuna na rádio, tal como raros os programas dedicados a tunas. Salvo erro, só mesmo o "Capas Negras", em Tomar, sobrevive como tendo um programa exclusivamente sobre Tunas.



Eis a lista de alguns desses programas:



- "Noite de Tunas"[1], na Rádio Festival – Porto (94.8 FM), no ano de 1993, produzido pelo Ricardo Tavares;
- "Noite de Tunas", na Rádio Regional de Aveiro (96.5 FM) e realizado por João Oliveira(com a colaboração de José Simões Pereira e Lili Santos Luís – redactor da revista Fórum Estudante);
- "Noites de Ronda" no Radioclube de Matosinhos (91.0 FM), programa da responsabilidade de António Jorge, com emissões regulares igualmente aos domingos à noite;
- "Capa e Batina", na Rádio Renascença, produzido, realizado e editado por José Araújo – programa de âmbito mais abrangente e não exclusivamente dedicado à tuna, mas que incluía na respectiva playlist temas interpretados por tunas;
- "Passa Tunas" na Rádio Universitária do Minho (99.5 FM), a cargo do , Ivan Dias (antigo elemento da EUC);
- "Capas Negras", na Rádio Cidade de Tomar (90.50 FM), da responsabilidade de José Rosado (Tuno da Templária).
- "Hora Tunante", na Rádio Alma Lusa (Gland - Suiça), da responsabilidade do casal Nuno Simões e Lúcia Cardoso Simões.
      - "Voz Académica", na Rádio Iris(91,4 FM), embora não                               exclusivamente sobre tunas, a ela dedica grande espaço, da                         responsabilidade de Ana Ameixa e Rute Cotrim.


In Revista "FORUM ESTUDANTE", 1996,
inteiramente dedicada às Tradições Académicas.

A propósito do 1.º programa de rádio dedicado a Tunas, aqui fica o testemunho do seu autor, Ricardo Tavares:





[1] O «Noite de Tunas» foi mais tarde reeditado, com o mesmo formato, na Rádio Universitária do Minho (99.5 FM), contando com o mesmo produtor, realizador e editor do programa original, e com a colaboração de Norberto Moreira e Joaquim Mendes (ambos do Grupo de Jograis Universitários do Minho – Jogralhos). 

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Era escusado, em Bragança (ou outro sítio)



O vídeo foi originalmente publicado na página de FB da RTUB (Real Tuna Universitária de Bragança).
Encurtámo-lo, para centrar e focar o assunto em causa.


Não se percebe que uma tuna, seja ela qual for, se apresente com tunos despidos daquela maneira. Não encontramos justificação para tal, nem mesmo praxes internas.
Por maior salutar que seja a irreverência estudantil, ela deve ser feita com graça e dentro de limites, precisamente para que seja irreverência e não outra coisa qualquer menos apropriada ou menos digna.
Há exageros e exageros. Neste caso, foi exagerado exagero.


Por melhores que sejam as intenções e efusiva seja a alegria, cremos que deve haver um mínimo de decoro e urbanidade perante o público (seja ele qual for), de forma a dignificar não apenas o grupo, mas a imagem das Tunas em geral.

Fica o reparo, para devida ponderação.

A RTUB é uma tuna com já largos anos de existência e uma história que muito respeitamos, daí o reparo para este percalço que destoa.


domingo, 15 de outubro de 2017

Tunologia e Tunólogos

Existe, actualmente, um amplo conjunto de publicações sobre o fenómeno das tunas/estudantinas, que resultam de estudo e investigação assentes em metodologia rigorosa.
Há, portanto, um acervo já considerável de estudos, análises, artigos e bibliografia produzidos por diversos autores que têm, usualmente, em comum a sua vivência como tunos, que lhes serve de ponto de partida.

Apesar do objecto de estudo em causa abranger diversas áreas do saber (musicologia, sociologia, etnomusicologia, história, ou mesmo do ponto de vista literário/linguístico...), o estudo estrito do fenómeno complexo que são as tunas não está, até agora, categorizado numa dessas várias áreas.


Com efeito, a Tuna pode ser lida sob todas essas perspectivas, mas difícil se torna catalogar tal, quando estamos perante o estudo, e estudiosos, centrados exclusivamente nesse assunto.

Quando os estudos produzidos não exploram nenhuma dessas áreas em específico, mas como um todo (porque multidisciplinar), coloca-se o problema de arrumar esse tipo de estudo numa categoria já existente (quando também acaba por caber noutras, conforme o prisma utilizado).

Mas é necessária alguma formação académica específica, para se estudar a Tuna?
Os factos demonstram que não. Temos gente das mais diversas áreas de formação (médicos, engenheiros, historiadores, musicólogos, etnólogos, pessoas formadas em literatura, advocacia ...) que produziram estudos e obras sobre o fenómeno tuneril.

O que importa é que o produzido assente nas transversais normas de um trabalho científico, numa metodologia académica de rigor (ou em várias em concomitância, conforme a natureza do trabalho)  que sustente a credibilidade dos trabalhos. E, para isso, à partida, qualquer pessoa com formação académica, onde tenha adquirido competências e saberes sobre como investigar e produzir trabalhos científicos, estará habilitada a tal.

O que está ainda em falta é colocar o devido rótulo, mesmo que informal, ao estudo específico da Tuna, bem como aos que se dedicam a tal actividade.
Longe de nós pretender substituirmo-nos aos dicionaristas e filólogos, cremos, contudo, ser hora de reconhecer, sem pretensões ou presunções, quem se dedica a conhecer e a dar a conhecer a Tuna, assim como o objecto dessa dedicação. 
Se damos o nome de Tuno a quem exerce o mester de tocar e cantar numa tuna, é mais do que justo que quem, também, se dedica ao estudo da Tuna, e contribui para o seu conhecimento, promoção e preservação da sua memória colectiva, possa receber uma designação própria.

Ficam, portanto, aqui, como sugestão, 2 definições informais:

Tunologia - ciência que tem como objecto o estudo da Tuna.


Tunólogo - pessoa que se dedica à tunologia; investigador/estudioso que faz investigação sobre a Tuna e cujo o trabalho, e domínio destas matérias, é reconhecido e credibilizado como tal.














sábado, 9 de setembro de 2017

Tunas em locais de culto

Será breve este artigo.
Não é novidade que, em muitos locais de culto, se tem tornado hábito realizarem-se concertos.
Até aí, à partida, pouco ou nada a adiantar.
Contudo, conviria relembrar que esses espaços são locais de culto, os quais obedecem a regras nem sempre observadas pelos próprios párocos, ou seja à revelia do que as normas canónicas determinam.
O contexto são as igrejas e templos católicos (dominantes nos países de matriz tuneril).
As igrejas são espaços sagrados onde a música que nelas se deve ouvir deve obedecer ao propósito para a qual as mesmas existem.
Fados, tunas e outros grupos, com repertório que não seja sacro ou litúrgico não deveriam ali poder ter lugar.
As igrejas não são, há que o dizer com todas as letras, salas de concerto. A haver concertos, que sejam dentro do âmbito, adequado ao local (sem isso significar beatismos), respeitadores e alinhados com a espiritualidade que se exige.
Existem, no meio tuneril, alguns eventos que passam por apresentação num local de culto (lembro-me, assim se repente, de Múrcia, onde, do programa do Barrio del Carmen, faz parte a visita à Iglesia del Carmen). O que não entendo nem concebo, de todo, é que as tunas não apresentem, ali, um repertório litúrgico (como sucedeu diversas vezes com a minha tuna, há uns anos) e, ao invés, executem temas profanos totalmente descontextualizados do local.



Obviamente que quem, primeiro, tem responsabilidade nisso é a hierarquia eclesiástica, mas não iliba as tunas da devida ponderação e discernimento.
Recentemente, a Azeituna apresentou um concerto na Sé de Braga, gravado em CD, de temas litúrgicos. Portanto, as tunas não estão impossibilitadas de, mediante o contexto e local, adequar repertório.

Mas custa-me ainda mais assistir (nomeadamente pelos vídeos publicados na net), a tunas que se apresentam num local de culto com chapéus na cabeça.
Um desrespeito de todo o tamanho de quem não sabe sequer respeitar a etiqueta, quanto mais os bons modos.

Algumas paróquias e sacerdotes têm necessariamente repensar esta questão (respeitando o que está previsto na lei canónica e demais indicações de quem manda no assunto), tal como as nossas tunas terem mais presente a necessidade de coadunar não apenas o repertório, mas, essencialmente, a postura, a um local de culto, seja-se crente ou não.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Seja de pé ou sentada, é Tuna.

Já houve quem fosse desclassificado, off the record, por a sua 1.ª fila ter tocado sentada, decorrente da curiosa ideia de que isso era contra-natura, de que era contra a tradição.

Em Espanha, nos dias de hoje, dificilmente se concebe uma tuna (ou parte dela) tocar sentada, desde que, nomeadamente a partir do franquismo, se estilizou o paradigma da tuna a tocar de pé (que importámos aquando do boom dos anos 80, pois, até aí, a tunas apresentavam-se sentadas).

Entre nós, para alguns, será igualmente estranho (para outros mais atentos, não), porque quase caiu em desuso e muitos nunca assistiram ou observaram (embora existam no nosso meio académico). 
Contudo, isso não significa que tenha deixado de ser válido e lícito.
Vai para 30 e poucos anos que, com o boom, veio a moda de tocar de pé, como faziam já os espanhóis, abandonando por completo o modelo até aí vigente (mas quase, já, desconhecido).
Mas apesar do facto da esmagadora maioria das nossas tunas tocarem de pé, não significa isso que seja dogma e muito menos possa ser tido como uma tradição exclusiva ou característica hermética da Tuna.


Tuna de Veteranos da Corunha (in FB da tuna)


Nada há que determine que a tuna não possa tocar sentada, fique claro.
Salvo as arruadas carnavalescas ou algum desfile (que também ocorriam), desde os primórdios (séc. XIX) que as tunas davam os seus concertos sentadas, em composição orquestral. Foi sempre esse o seu DNA e paradigma (que ainda perdura, embora quase extinto no foro escolar), fruto do tipo de espectáculo (e repertório), cuja postura sentada se coadunava melhor a esse propósito.
Não há registo de, ao longo de todas essas décadas, haver qualquer menção de que só se podia tocar sentado. Não se percebe, pois, que tenha havido, ou eventualmente possa ainda haver, quem pretenda que só de pé as tunas podem actuar.

Tuna Académica do Liceu de Évora em 1991
(In TALE 100 história e tradições, de Adília Zacarias e Isilda Mendes, 2012)

Tuna  da Associação dos antigos tunos de Coimbra
(In blogue "Guitarra de Coimbra (Parte I)", publicação de 09 Julho de 2005)

Sessentuna, Tuna da AAOUP, 2004.
(In http://aaoup.up.pt/sessentuna.php)

TAUC em 2017
(in https://tunauc.wordpress.com/)


TDUP, 2015
(In canal do youtube da TAISEL)


Ainda hoje subsistem tunas e estudantinas (em Portugal e no estrangeiro) que há mais de 100 anos continuam a tocar sentadas.


Tuna Mouronhense, com mais de 100 anos, já.

Estudiantina Chalon, fundada em 1896 (com mais de 120 anos, portanto).
(In http://www.info-chalon.com)

Cercle Royal des Mandolinistes  - Estudiantina de Mons, Bélgica.
(in Qvid Tvnae, 2012)

Estudiantina albigeoise (Midi-Pyrénées), França, fundada em 1929.
(In http://www.ladepeche.fr/)
L'Estudiantina de Ciboure, fundada em 1912.
(In http://www.sudouest.fr)
Estudiantina Bergamo, Itália, fundada em 2009.
(In Youtube)


Portanto, seja de pé, seja sentada, seja um misto das duas posturas, nenhuma tuna é menos Tuna por qualquer uma dessas opções, ao contrário do que entenderam alguns sandeus com excesso de zelosa ignorância, há uns anos (e porventura ainda entendem alguns mais distraídos).






sexta-feira, 21 de julho de 2017

Duas Tunas lusitanas dos EUA, 1934

Conhecia-se já a existência de tuna/estudantina nos EUA, com origem em Nova Iorque, a qual visitou Portugal em 1927[1].
O artigo que abaixo se partilha fala-nos de outras duas: uma tal "Tuna Cunha" e uma outra, a "Tuna Escolar Brito Pais". Esta última, segundo a descrição, é certamente uma tuna juvenil e sabemos ser mista (como era comum ocorrer em tunas compostas por mais jovens).


Diário de Notícias, New Bedford (EUA), de 28 de Novembro de 1934, p.5








[1] COELHO, Eduardo, SILVA, Jean-Pierre, TAVARES, Ricardo, SOUSA João Paulo - QVID TVNAE? A Tuna estudantil em Portugal - Euedito, 2012, p.248.

Uma Tuna Escolar em Cabo Verde, 1925

Já Qvid Tvnae (2012) referia a existência de tunas estudantis pela diáspora portuguesa, mas aqui fica mais um dado novo sobre uma Estudantina em Cabo Verde, através de um jornal publicado nos EUA (destinado à comunidade portuguesa).

A Alvorada, New Bedford (EUA), Ano VII, N.º 1809, de 04 de Abril de 1925, p.4

Uma Estudantina em Goa, 1897

Já Qvid Tvnae (2012) referia a existência de estudantinas pela diáspora portuguesa, mas aqui fica mais um dado novo sobre uma Estudantina em Goa (ìndia)[1], através de um jornal publicado nos EUA (destinado à comunidade portuguesa).


União Portugueza. São Francisco (EUA), de 02 Dezembro 1897, p.2






[1] Capital do Estado Português da Índia a partir de 1510 e integrada no estado indiano após tomada pela armas ocorrida em 1961.


CLAVELITOS (Dame el clavel), história de um hit intemporal

"Clavelitos" é o melhor exemplo de um tema que, nada tendo a ver com o mundo académico estudantil, ficou irremediavelmente associado às Tunas quando foi incorporado no repertório das mesmas, na década de 1950 do século passado.





Valsa composta em 1949 pelo músico e compositor Genaro Monreal Lacosta (1894-1974), tem letra de Galindo Lladó ( 1904-2000) e é normalmente utilizada como tema de serenata. 
Clavel significa cravo, pelo que "clavelitos" são cravinhos, vermelhos (da cor de morango) neste caso.




Originalmente, o tema designa-se "Dame el clavel", mas vingou "clavelitos", que é usado repetidamente no refrão. Foi inicialmente adoptado pela Estudiantina de Madrid, nos anos 1950, e replicado pelas demais da capital.

É o tema mais tocado e conhecido no meio tuneril espanhol e, porventura, no mundo inteiro.

Para isso, muito contribuiu o facto de ter feito parte do disco editado pela Estudiantina de Madrid (Tuna de Distrito), "Cuando los tunos pasan", em 1958, e que se tornou um êxito instantâneo (o tema tem por solista António Albaladejo Herreros "Tano") - até porque estamos perante o 1.º disco de tunas gravado no pós guerra civil (desse disco faz parte um outro tema famoso: "La tuna pasa").
Com o tema a passar nas rádios, é fácil imaginar o alcance que tal tema logrou.






A sua primeira partitura foi publicada em 1959, em Madrid, pela editora "Momento Musical", contribuindo para a sua rápida adopção por parte de inúmeras orquestras e grupos.





Não menos importante para a sua divulgação foi o facto de fazer parte de diversas trilhas sonoras no cinema: “Escucha mi canción” (1958), onde Joselito eterniza o tema, e “La casa de la troya” (1959), entre outras, que internacionalizam o tema.






segunda-feira, 26 de junho de 2017

QVID TVNAE em Tese de universidade alemã (Musik der portugiesischen Tunas)


Musik der portugiesischen Tunas (A Música das Tunas Portuguesas)

Já não é inédito, contudo não deixa de ser gratificante para os autores portugueses do Qvid Tvnae, verem-se referidos em trabalhos académicos, especialmente no estrangeiro.

Uma tese de licenciatura na Faculdade de Letras da Universidade Católica de Eichstätt-Ingolstadt (Alemanha) de Lisa Helbig (2014), cuja sinopse pode ser encontrada clicando AQUI (a tradução automática permite, ainda assim, perceber).




Para quem domine o idioma germânico, a obra também se pode adquiri na Amazon: https://www.amazon.de/Musik-portugiesischen-Tunas-Lisa-Helbig/dp/3656894736