terça-feira, 19 de maio de 2020

A centenária Tuna Tramagalense


Um destaque, hoje, para uma tuna popular: A Tuna Tramagalense (Tramagal - Abrantes), fundada há mais de um século e cuja actividade, depois de um período de interregno, retomou há já várias décadas.

Na senda das tunas populares, esta agremiação é mais um exemplar da tradição tuneril no foro civil em que as populações fundavam associações de recreio (Ateneu, Orfeão, Círculo, Centro...), muitas vezes sn a designação estudantina/tuna, mas onde não apenas a orquestra de cordofones pontificava, mas, igualmente, outras actividades culturais, educativas, lúdicas (e por vezes políticas, como sucedia, especialmente no meio urbano, com os Centros Republicanos, muitos deles também com tunas).



Sobre a sua história, transcrevemos:

"Em 15 de abril de 1915 foi criada a Tuna Tramagalense. Assinalam-se hoje 104 anos.
A Sociedade do Cordel , da iniciativa de Manuel Lopes Martins, Manuel Manana Júnior e outros, em 1912, havia estado na génese da Tuna Tramagalense.

A atividade musical na Tuna, conjunto de cordas, sob a direção e entusiasmo do Professor, Artur Pinto, e a atividade teatral, tendo como ensaiador, o médico, Dr. João José Alves Mineiro, marcam os primeiros anos da Tuna Tramagalense.

O Dr. João José Alves Mineiro, mais tarde eleito Presidente Honorário e o Prof. Artur Pinto são figuras marcantes dos primeiros tempos.

Um pavoroso incêndio em 1924 consome a sede da Tuna, por ocasião de um baile, em que perecem 9 pessoas, trágico acontecimento que abala a estrutura e atividade da associação.

Em 1942 à Tuna Tramagalense sucede o Teatro Tramagalense, Lda., com uma fórmula suscetível de mobilizar os meios financeiros necessários à construção da nova Sede, na Estrada Nacional, com sala de espetáculos com cinema, clube e esplanada ao ar livre para festas e cinema, assim como ringue de patinagem."[1]



A Tuna Tramagalense nos anos 1940.
(Foto obtida no FB da tuna)

A Tuna Tramagalense nos anos 1940-50.
(Foto obtida no FB da tuna)


Sobre esse famoso incêndio de 1924, na sede da Tuna, e que ceifou a vida a várias pessoas, deixamos estas 2 imagens.

 
Evocação do incêndio que destruiu a sede da Tuna Tramagalense, em 1924, matando e ferindo diversas pessoas.
(Foto obtida no FB da tuna)


[1] In Página de FB da Tuna Tramagalense. Consulta a 18-05-2029

quinta-feira, 30 de abril de 2020

Vontade de ser....TUIST

Com já mais de 1 mês de confinamento, há que honestamente dizer que já pouca coisa empolga nas iniciativas tuneris online.
Aliás, estamos agora não apenas a ficar mesmo fartos de confinamento, como enfartados de "mais do mesmo".
Das poucas iniciativas que jogam num patamar superior, temos o já referido "TUNICES" (abordado no anterior artigo), bem como, a título de exemplo, o vídeo da Tuna Veterana do Porto (que não se limitou a mais do mesmo, mas produziu algo feito efectivamente "em directo" - sem playbacks corriqueiros, com dinamismo e com letra adaptada, com graça, à situação vivida).
Mas o que surgiu (e não foi programado em função da pandemia), como pedra no charco, foi o magnífico documentário sobre os 25 anos da TUIST (Tuna Universitária do Instituto Superior Técnico, de Lisboa), sob o título "Vontade de ser - 25 anos TUIST".

E é, hoje, o assunto deste artigo, apropriadamente sob a designação "Vontade de ser...TUIST" (ser como ela, parecido com ela, parte dela, inspirado por ela..... conforme o ângulo ou todos eles).




Não há muito mais para dizer do que aquilo que já foi soberbamente abordado no "TUNICES"  de ontem).
Cabe, aqui, apenas mencionar alguns aspectos que distinguem este documentário de outras produções multimédia tuneris que pululam na net.

O primeiro de todos é a autoria.
Não foi a tuna que escreveu o guião, o produziu, orientou ou decidiu que imagens, planos e aspectos retratar.
Inteligentemente, a TUIST deu carta branca à realizadora, Patrícia Pedrosa, daí resultando uma pequena obra de arte. Que sabia que estava em boas mãos é igualmente ilustrativo do critério de qualidade na escolha das pessoas com quem a tuna labora.
Tal permitiu um olhar exógeno, de fora para dentro, captando (e note-se a importância) aquilo que mais interessa ao público (algo que nem sempre se compatibiliza com o que interessa aos tunos/tunas).

Depois, a simplicidade narrativa, ora em zoom in ora em zoom out, onde se materializa plenamente aquele velho chavão de "gostava de ser mosca para ter visto".
Neste documentário somos mesmo essa mosca curiosa, discreta e, ao contrário das comuns, em nada perturba. Somos quase que levados a vestir a pele de um membro da TUIST e a vivenciar, como que presencialmente, os bastidores daquilo de que são feitas as grandes tunas.

A autora não caiu na tentação de mostrar vitrines de prémios, de elencar currículos, de pavonear grandes actuações em certames.
Procurou, antes sim, em diversos momentos, deixar adivinhar, quase que em jeito spoiler, o que rigor, organização, cumplicidade e compromisso inevitavelmente vão produzir.
Não se procurou, daí a importância da liberdade absoluta dada à autora, mostrar lugares comuns, entrevistar tudo e mais um par de botas, fazer do documentário um museu virtual de feitos e conquistas.
Procurou a autora captar o genuíno, o espontâneo e, de modo simples - mas genial, identificar-nos (levar a revermo-nos em muitas daquelas circunstancias) com os protagonistas.



Mais: não há personagens principais.
Apesar de mais ou menos destaque numa ou noutra figura, fica claramente a ideia de que é a TUIST o verdadeiro protagonista principal, não apenas nos momentos públicos, mas a TUIST em casa, sem máscaras.

Não menos importante está a necessária referência à qualidade da imagem e do som.
Apesar de vivermos na era digital e dos gadgets tecnológicos à disposição, não é menos verdade que a esmagadora maioria daquilo que é publicado nas redes sociais (sobretudo no youtube) é de péssima qualidade no que concerne à captação e edição.
Já a isso nos referimos em artigo, bem como mereceu especializada tertúlia no passado dia 13 de Abril.
"Vontade de ser" não é mais um vídeo, não é mais um documentário. É um trabalho feito com grande qualidade técnica, mais um dos raros oásis no deserto que caracteriza a produção multimédia tunante nacional.

Vasco da Câmara Pereira (o eterno "Véspera") ainda ontem dizia que, a isso, muito ajudou terem reconhecido os erros do passado (referindo-se ao menos conseguido trabalho sobre os 20 anos da TUIST), fomentando o desejo de produzir algo melhor.
E quando assim é, quando se tiram criticamente lições do passado, como disso é prova este magnífico documentário, apenas podemos aplaudir algo que ilustra igualmente a qualidade humana das pessoas.

O documentário serve também outro propósito: fazer memória.
Com efeito, houve preocupação em criar algo para memória futura, aspecto tão arredado da maioria da comunidade tunante.

"Vontade de ser" não podia ter sido melhor escolhido para título deste trabalho.
Depois de visto, dá vontade de rever (da minha parte vou em 3) e, creio, que certamente suscitará e inspirará, em muitas tunas e tunos, a vontade de "ser assim", de viver assim a tuna, de fazer desse modo.
Acredito igualmente, que possa despertar, em muitos estudantes ou futuros estudantes do IST,  a vontade de ser membro da TUIST, de ser (e fazer) parte da sua história, comungar da sua mística e experienciar o que o documentário tão bem soube traduzir da imagem que se pretende da Tuna Portuguesa.

Parabéns à TUIST e um enorme abraço a todos os seus membros,  de hoje e de ontem...amigos de sempre.

terça-feira, 28 de abril de 2020

TUNICES - A Tertúlia que COnVIDa TUNA


"Há males que vêm por bem."

Poderia ser o chavão popular usado para caracterizar o novo programa que o PortugalTunas tem promovido desde 27 de Março.
Em tempos de confinamento, devido à pandemia pelo vírus Covid-19, temos assistido a um crescimento exponencial da actividade nas redes sociais, a que as tunas não passaram ao lado. Têm, aliás, redobrado em iniciativas nesse domínio (algumas de grande qualidade), mesmo se o modelo dos vídeos musicais (entre outros) possa já estar a atingir um ponto de saturação.

São muitas e variadas as formas que as tunas encontraram para se reinventarem nesta época, mas é indubitavelmente o "TUNICES" que apresenta uma programação de maior qualidade e utilidade à comunidade. Verdadeiro serviço público tuneril, iniciou por ser diário, sempre às 22h00, estabilizando, após as primeiras tertúlias, em emissões à 2.ª, 4.ª e 6.ª[1].

Espaço onde os assuntos são abordados, de forma leve, bem disposta e em ambiente de verdadeira tertúlia, e que já passaram por muitos temas (dos mais técnicos aos  mais históricos, dos mais anedóticos aos mais sensíveis, dos que pareciam, à partida, pouco ter para espremer e, depois, deram sumo inesperado).
Ricardo Tavares e José Rosado (recentemente entrevistados sobre o programa e percurso de 18 anos do PTunas) emprestam toda a sua competência e saber, como anfitriões, recebendo personagens diversas do panorama tuneril, com quem estabelecem um diálogo que faz esquecer as horas.

O "TUNICES" vai já em 15 emissões.
Tem ainda muito tema por explorar, muitos ângulos para pôr os assuntos em perspectiva, muitos convidados para nos ajudarem a passar bons momentos, como até aqui tem sucedido.

A receita é de sucesso, mesmo se sabemos que grande parte do público alvo se está nas tintas, como sempre esteve (seja para corresponder ao Census Tuna do Ptunas, a participar nos ENT, a ler, a debater...), mais interessado em publicidades efémeras, em likes de ocasião e vaidades de instagram.

O "TUNICES" é uma das poucas iniciativas tunantes da actualidade que merece efectivo destaque, seja pela qualidade do programa em si (e dos seus animadores) seja pelo formato televisivo, via youtube, que permite aprender e reflectir sobre a Tuna, de forma lúdica.
Um programa para quem gosta de Tunas a sério, em todas as suas dimensões e facetas.
Se não estamos perante a descoberta da pólvora, estamos, certamente, perante um dos tiros mais certeiros dos últimos anos.

Não podemos senão parabenizar o PortugalTunas pela iniciativa e aguardar, ansiosamente, pelas próximas emissões, neste que se tornou, para alguns, a sua "novela" (quase) diária.




[1] E como ele alterna a emissão "Quarentunos em quarentena".

terça-feira, 21 de abril de 2020

Gerações Tuneris

Ouve-se, de quando em vez, no nosso meio tuneril, falar-sem em gerações de tunos, não poucas vezes num sentido pouco consentâneo com os factos.
Com efeito, é comum ouvir um tuno de 25 anos falar patriarcalmente de outro seu colega de tuna mais novo (porventura caloiro) como pertencendo a outra geração.
Este tipo de conversa quase nos remete para os inícios do "boom" onde havia uma desenfreada busca por antiguidade.
O uso, nem sempre adequado, da noção de geração resulta, quase sempre, de uma formulação que visa como que uma emancipação, a ideia de se ter atingido o estatuto de veterano (a que não é alheia a nomenclatura hierárquica da Praxe) face a outro ligeiramente mais novo.
Não será certamente necessário passar em revista as teorias sociais sobre gerações da década de 1920 (Ortega y Gasset, 1923; Mannheim, 1928), de 1960 (Feuer, 1968; Mendel 1969) ou de 1990 (Tapscott 1998; Chisholm, 2005) ou, até, aprofundar as formulações positivistas de Augusto Comte, a abordagem histórica de Dilthey ou, ainda, a formulação sociológica de Manheim.


O que convirá ter em atenção é que, no estrito âmbito tuneril, o que se observa, de forma cada vez mais clara, é que as nossas tunas, salvo raras excepções, apresentam grupos muito heterogéneos onde convivem pessoas de várias faixas etárias.
E é precisamente isso que importa reter: faixas etárias nem sempre correspondem propriamente (para o caso que aqui importa) a diferentes gerações.
 
Claro está que podemos falar em gerações históricas (como sucedeu com o movimento académico coimbrão, conhecido por "Geração de 70", formado por Antero de Quental, Eça de Queiroz, Oliveira Martins, Ramalho Ortigão,entre outros), no sentido em que determinado grupo de pessoas viveram/protagonizaram um conjunto de acontecimentos marcantes, contudo, e simplificando, é mais plausível e sensato apreender o sentido de "geração" como a que estabelece um distanciamento cronológico suficientemente lato para que se possa observar sociologicamente uma diferença clara.
Ora, e sempre simplificando, nada mais objectivo do que esta espécie de regra de três simples que é: a nova geração é aquela que tem idade para ter sido gerada biologicamente pela anterior, ou seja um hiato de cerca de 30 anos (seguindo a observação de A. Comte).

Há hoje, portanto, no nosso meio tuneril, e contando a partir do "boom" (de 1985 em diante), 2 gerações, grosso modo: são, hoje, os abeirados dos 50 anos e mais, e, depois, os que actualmente formam a faixa etária com idade para ter sido gerada biologicamente pela primeira.

Obviamente que nem tudo é preto e branco, e há que contemporizar as zonas cinzentas formadas por todos aqueles que se encontram no meio.
E aqui entram as diversas abordagens sociológicas que, desde a década de 1920, se debruçam sobre estes assuntos de "gerações".

No meio tunante, podermos, face à questão dos que "ficam pelo" meio, falar igualmente na geração tuneril do séc. XX  e, depois, o que entraram nesse mundo já no séc. XXI (pese embora as tais zonas cinzentas entre um tuno ingressado, por exemplo, em 1998 não ser propriamente de uma geração distinta de outro ingressado, por exemplo, em 2001).
Outros sentidos podem, sabemos, ser emprestados, em contexto tuneril (e não só) ao conceito de "geração", mas quase sempre parece ser importante haver um observável distanciamento cronológico que não parece, de todo, poder ser inferior a 10/15 anos e em concomitância com divisórias históricas (como defende Dilthey).

 Falar, portanto, em "gerações", no meio tuneril, é algo que deve merecer cautelas, acima de tudo para evitar conceitos ad hoc, talhados à medida, e que, de quando em vez, acabam por ser pouco lógicos (quando não são algo risíveis), quando ouvidos na boca de um jovem que fala de colegas com tão pouca diferença de idade.

A nossa comunidade tunante, numa análise simples e objectiva, terá 2 gerações, assente na ideia de "geração" determinada pela sucessão de "pais" e "filhos" - a forma mais pragmática de olhar a coisa.

terça-feira, 24 de março de 2020

Estudiantina no Carnaval de Sevilha, 1885

Uma imagem de um periódico da Áustria, datado de 1885, versando uma estudiantina, durante o Carnaval de Sevilha de 1885.
O artigo que acompanha, mais abaixo, a imagem, fala em em estudantes, com seus tradicionais trajes pretos, bicórneo com colher, casaco curto, de guitarra na mão, que percorrem as ruas, tocando, com suas capas.

Neue Illustrirte Zeitung, Ano XIII, N.º 19, de 01 de Fevereiro de 1885, p.4.

sábado, 7 de março de 2020

Investigar em Portugal - Trabalho de hoje com ferramentas de ontem.


Fazer investigação a partir de periódicos e outras publicações, em Portugal, será das tarefas mais complicadas e ingratas.

A investigação sobre Tunas não foge à regra, sendo até, em muitos casos, ainda mais difícil, tendo em conta que pouco foi desbravado no que concerne ao levantamento documental de evidências.

Ao contrário do que se sucede, por exemplo, em França e em Espanha, onde, no caso da imprensa, os exemplares estão digitalizados com reconhecimento OCR (reconhecimento de caracteres), em Portugal são raríssimos os casos em que tal sucede (até hoje encontrei menos de uma meia dúzia de periódicos nessas condições).

O reconhecimento OCR permite a busca por palavras, dentro do documento, poupando anos de investigação.


Mas a grande vantagem dos dois países acima mencionados é que as estruturas responsáveis pelo acervo disponibilizam igualmente um motor de busca que permite a pesquisa por palavras não apenas a 1 periódico em específico, mas estende a busca a todos os documentos digitalizados existentes, apresentando, depois, as ocorrências por relevância, data, etc.

Em Portugal, não existem motores de busca desse género, algo incompreensível e, de certo modo, inaceitável.
Em Portugal, as colecções online, disponibilizadas em PDF, são digitalizações em formato de imagem, sem reconhecimento OCR. Em alguns casos (como na BNP), nem sequer uma referenciação por localidade (como sucede na Hemeroteca Digital de Lisboa).
Se é verdade que já é uma enorme vantagem  haver documentação online - e não ter de fazer deslocações para aceder (podendo fazer-se a partir de casa), o facto é que continua a ser necessário abrir cada exemplar e lê-lo de fio a pavio, à procura do que se pretende.

E só estamos a falar do acesso online, porque são ainda muitas centenas de documentos e periódicos que é preciso consultar presencialmente (algo simplesmente inaceitável, hoje em dia, para muitos documentos como são os jornais), num país que se quer na vanguarda tecnológica (e fez disso política desde o tempo do Sócrates e do seu Plano Tecnológico, dos seus "Magalhães", quadros interactivos e afins).

Ora, o leitor faça esta simples conta de merceeiro:

1 ano tem 52 semanas.
Pegando num periódico diário (normalmente são 6 exemplares por semana, folgando um dia), teremos nada menos que ca. 312 jornais para ler (a variar entre a 4 e as 6 páginas - umas vezes menos e outras mais) nesse ano. Estamos a falar de cerca de 1200 a 1800 páginas.
Isto só para 1 ano!
Basta imaginar a trabalheira que dá, nem que seja para um periódico que só existiu, imaginemos, 10 anos (há-os com maior longevidade e, alguns, com publicação ininterrupta da década de 1870 à actualidade).

O leitor imagine o tempo, o esforço e resiliência dispensados a pesquisar por assuntos específicos como são as tunas/estudantinas, ao longo de milhares de páginas. E, depois, lá se vão umas dioptrias (ler num ecrã de computador desgasta e cansa mais).
Leitura de centenas e centenas de páginas, por vezes sem qualquer retorno (chega a haver periódicos onde nada se encontra em 2, 3 ou mais anos pesquisados) que obriga o investigador a confrontar-se tantas vezes com a frustração (embora também seja recompensado na perseverança, encontrando, não poucas vezes, dados riquíssimos e inéditos).

Havendo várias centenas de periódicos a abranger o período que vai de inícios do séc. XIX até, pelo menos, 1980 (para não ir mais longe), bem se reconhece a tarefa quase impossível que se tem pela frente.
E isto só para Portugal. 

Se a pesquisa está facilitada em França e Espanha, há que também contar com outros países onde o fenómeno Tuna/Estudiantina se manifestou (alguns com o mesmo problema que o lusitano, diga-se).

Voltando ao nosso espaço geográfico português, apenas constatar que é simplesmente paradoxal que se gaste, tantas e tantas vezes, dinheiro em inutilidades, mas para dotar bibliotecas de meios e pessoas - para a tarefa de catalogar, digitalizar e fazer um verdadeiro "simplex" de acervos documentais digitalizados, não haja meios de nos colocar a par com os demais parceiros europeus.

Vale a pena meditar sobre isto, nem que seja para que o trabalho de investigação e os investigadores sejam mais reconhecidos e, quiçá, um dia, alguém com poder de decisão faça alguma coisa para mudar o estado actual das coisas.

Entrementes, volto à labuta, que se tornou, há muito tempo a esta parte, diária, de percorrer periódicos.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

Foto da TAUC em periódico de 1930

Pode parecer banal, mas a verdade é que fotos da TAUC em periódicos antigos não se encontram com facilidade.

Aqui fica o registo.

Gazeta de Coimbra, Ano XX, N.º 2625-2652, de 16 de Dezembro de 1930, p.1.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

Lapsus Tunae


Isto de historiar tunas, mesmo que a própria, é um caminho sinuoso, nem sempre devidamente pavimentado e nem sempre acompanhado de sinalética correcta, levando, por vezes, a enganos.

Em 2012, surge, na página de Facebook da TUP (Tuna Universitária do Porto), uma publicação que apresenta uma foto, pretensamente do grupo (a acompanhar um pequeno texto a situar as origens da Tuna - 1890), mas que, na verdade, correspondia à Tuna da Escola Politécnica de Lisboa em 1903-04 (imagem de um postal ilustrado que se pode encontrar na BNP[1]).



Após N chamadas de atenção (iniciadas em 2013), foi finalmente eliminada a publicação no ano passado.
Essa foto, erradamente identificada como sendo a TUP já fora, em 2001, colocada no livreto do CD "Concerto de Apresentação da Queima das Fitas de 2000", acompanhada de um pequeno texto histórico também com erros (fala que datam de 1864 as notícias de agrupamentos do género no Porto, mas sem haver qualquer prova documental; refere 1891 como ano da deslocação a Salamanca e Madrid, quando foi no ano anterior, em 1890) .

Zoom à página 8 do livreto do CD "Concerto de Apresentação da Queima das Fitas de 2000".

Se é certo que tal imagem jamais poderia provir do arquivo do OUP/TUP, onde foi encontrada e o que terá levado a pensar tratar-se da TUP? Em que se baseou o autor do texto do livreto para fazer afirmações tão taxativas?

Nem sempre é fácil o rigor, quando não se usam as devida cautelas e algum critério de exigência.
Veja-se, por exemplo, que na Wikipédia se afirma que a TUP é a mais antiga tuna académica do país, remetendo as suas origens para 1888 e justificando tal com uma referência bibliográfica (mal feita, diga-se, pois nem menciona a autoria) para um documento que não suporta sequer tal afirmação.

Página da Wikipédia (Janeiro de 2020). Verifica-se que a fonte mencionada está mal referenciada, apenas constando o título do documento (com link para a página que o apresenta)

O documento referenciado foi utilizado no II Congresso Ibero-Americano de Tunas (Múrcia, 2014), para a palestra subordinada ao tema "As origens da Tuna em Portugal (Séc. XIX e XX)" e, na página 4, fala em Tuna/Estudantina do Porto, mas não especificamente em Tuna/Estudantina Académica do Porto. 
Há uma grande diferença, pois estudantinas (tunas) não são (como nunca foram) forçosamente de cariz estudantil. Nada há, à data, que estabeleça relação entre essa estudantina portuense em 1888 com a TUP. Aliás, os dados mais recentes deixam claro que a Tuna/Estudantina Académica do Porto (Portuense)  nasce em 1890[2], fruto da fusão de 3 grupos tuneris pré-existentes (e nem sequer com a designação "tuna" ou "académica").
Seja como for, as origens da TUP datam de 1890, e não antes.

Avançar que é a Tuna[3] mais antiga poderá ser imprudente, dado que há muitas variáveis a ter em conta - desde logo a questão da actividade ininterrupta. O que se pode dizer com segurança é que é das mais antigas, não mais que isso.

No mesmo artigo da Wikipédia também se avança que a tuna académica feminina mais antiga do país é a Tuna Feminina do OUP.
Uma vez mais, convirá procurar um maior rigor, dado que tal afirmação é errónea.
A Tuna Feminina do OUP é, sim, a tuna Universitária mais antiga do país (fundada em 1988), mas recordemos que tunas académicas já as havia nos liceus, colégios e escolas superiores desde o séc. XIX e que parece haver registo de um grupo (mesmo que efémero) feminino académico nos anos 60[4].
Uma linguagem menos rigorosa facilmente induz em erro e o termo "Académico/a" não é, como nunca foi, exclusivo de Universidade.

Use-se de muitas cautelas antes de se avançarem afirmações absolutas como "a/o mais antiga/o", sem antes haver preocupação em documentar-se devidamente e substituir a ânsia de primazias e pedestais por prudência e consulta de terceiros (pessoas que andem mais por dentro destas coisas da investigação tuneril).
Algumas falhas, por pequenas que sejam, especialmente se ligadas à imagem institucional, são pouco condizentes com o contexto de literacia e busca de rigor científico-histórico expectável no meio universitário.

Tal evitaria, também a título de exemplo, a publicação de obras com informações que relevam mais de bazófia que de objectividade (e que não se corrigem com a mesma facilidade de um Facebook ou quejandos), como afirmar que o FITU é o mais antigo festival de tunas ininterrupto do mundo (e de que demos nota em artigo de Março 2019), algo sem fundamentação alguma. 

Capa e página 32 do livro FITU "cidade do Porto", 30 Anosde História, 2019.


O Festival mais antigo ininterrupto é o Certame de Tunas do Distrito Universitário de Sevilha, criado em 1970, que vai para a sua 46.ª edição ininterrupta[5], seguindo-se outros[6].

Todos somos passíveis de erros e lapsos.
Procure-se, ainda assim, tanto quanto possível (em publicações ao grande público, sobretudo), a revisão e consulta de conteúdos junto de terceiros[7] que tenham algum conhecimento na área, além do imperativo basilar no que à referenciação das fontes diz respeito, sobretudo quando se utiliza o trabalho e material de outrém.

Fica a reflexão.






[1] E publicada, em 2011-12, na obra QVID TVNAE?, p. 207.
[2] Com a designação Estudantina Portuense, ainda sem a referência "Académica" no nome.
[3] Falamos em Tuna, mas, nessa altura, a designação mais corrente era "estudantina".
[4] Vd. SILVA, Jean-Pierre - Tuna Feminina do Liceu de Santarém? Uma imagem a que faltam palavras. Blogue Além Tunas, artigo de 02-02-2017 e A Grande Tuna Feminina de Alfredo Mântua - Breve Contributo Documental (1907-1913). CoSaGaPe, Lisboa, 2018, p. 53.
[5] Vd. PortugalTunas   - Sabias que..., artigo de 19 de Março de 2019.
[6] - Certamen de Tunas UPM, que vai para a sua XXXVII edição (criado em 1983); Certamen Provincial de Tunas de Málaga, que vai para a sua XXXV edição (criado en 1985); Certamen Nacional de Tunas de Magisterio (Burgos), que vai para a sua XXXV edição (criado en 1985); Certamen de Tunas y Estudiantinas de Iquique (Chile), que vai para a sua XXXV edição (criado em 1985); Certamen de Económicas, que vai para sua XXXIV edição (criado em 1986); Certamen Nacional de Tunas Empresariales, Económicas, Comércio Y Turismo (Jerez), vai para a sua XXXIV edição (creado en1986).
[7] E critério na escolha de quem assume certas tarefas.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Certamen de Tunas em Coimbra, 1908


Não é inédito termos notícia de certames de tunas em Portugal, em inícios do séc. XX (QVID TVNAE, 2011-12). O que é de facto inédito é termos dados sobre o regulamento de um deles.
Foi o que fomos descobrir num periódico conimbricense de 1908, o qual relata a organização de um "Certamen de tunas", organizado pelo "Coimbra-Club", inserido nas Festas da Rainha Santa (Festas da Cidade de Coimbra).

Até à data, e dessa época, só conhecíamos regulamentos de certames em França, Itália, Bélgica...[1], sendo que este tem muitas similitudes.
Atente-se ao pormenor curioso na preocupação em garantir equidade entre tunas concorrentes, só permitindo, por exemplo, que na peça escolhida pelo júri, apenas possam tocar os instrumentos indicados na partitura fornecida.

Resistência (Coimbra), Ano XIV, N.º 1349, de 08 de Outubro de 1908, p.1.

Não foi possível apurar  quais as tunas que participaram neste certame em particular (já que, em anos anteriores, encontrámos tunas populares da região de Coimbra e, sobretudo, da região de Anadia e Mealhada, a participarem).


[1] Vd. SILVA, Jean-Pierre - A França das Estudiantinas -Francofonia de um fenómeno nos séc. XIX e XX. CoSaGaPe, Lisboa, 2019.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

ENTretanto, fala-se numa edição em 2020


Fala-se, ainda quase como que "boato", do regresso do ENT (Encontro Nacional de Tunos) para este ano de 2020, ainda sem saber quando nem onde.
O ENT, como sabemos, teve a sua primeira edição em Évora, em 2003 e, daí em diante, outras 8 edições tiveram lugar, tendo a última sido o IX ENT, em Vila Real, em 2013.

O ENT, salvo o ano de 2008 e 2012 (em que não houve edição), foi anual, tendo percorrido quase todo o território continental (e com duas edições sucessivas, em 2010 e 2011, em Bragança), de norte a sul e do litoral para o interior.
Mas ficaram algumas academias de relevo sem serem visitadas (o caso mais evidente será o Porto).
De 2013 até agora passaram-se 7 anos sem qualquer edição (algumas boas intenções houve, mas que não passaram disso).

Se agora teremos uma edição, é de se louvar. Louvar a coragem e o empreendedorismo de quem decide prestar este verdadeiro serviço público à comunidade, mesmo se a larga maioria da mesma passa ao lado.


Razões haverá para que este não seja um evento muito participado nem algo que as tunas mostrem especial vontade em organizar. Bem sabemos que não dá prémios e bem sabemos que a busca por informação e formação é ainda cultura muito pouco desenvolvida. E, para debater, a maioria prefere passar adiante ou ficar-se pelo cómodo teclado de casa. É a costumeira "Lei de Murphy". O ENT nunca foi para massas, mas para quem de facto quer pensar, quer saber e reconhece o valor da reflexão crítica daquilo que se faz.

Ao longo das 9 edições do ENT, pouco ou nada ficou por discutir, sendo que uma das enormes virtudes do ENT foi precisamente acompanhar a actualidade (trazendo para o debate o que estava na ordem do dia das preocupações da comunidade - como o caso das praxes Vs Tunas, por exemplo) e permitir o estabelecer de contactos e a partilha de experiências que enriqueceram quem esteve.

Passados todos estes anos, o que há, afinal, para preencher um programa de um ENT em 2020?



Nem que seja de cor, creio que todos podemos dizer que, em 7 anos, há certamente muita coisa que aconteceu e merece análise, debate, partilha, reflexão.

Assim que me lembre (e a maioria a serem tratados por 2, 3 intervenientes ao mesmo tempo, em jeito de conversa, evitando, tanto quanto possível, palestras a solo):

- A Tuna na Web (Plataformas informativas e formativas[1], as páginas de FB das Tunas, a qualidade do que é posto no youtube[2], o streaming de festivais, as tendências e hábitos da comunidade na web);

- A investigação e o conhecimento (o estado da investigação/conhecimento, o que tem sido publicado, as dificuldades, o feed-back do que é publicado[3]....);

- A produção fonográfica (aproveitando, por exemplo, o trabalho do Museu Fonográfico Tuneril), evolução, problemas encontrados, divulgação, preservação da memória....;

- O estado da nação tuneril em termos estatísticos/sociais (aproveitando a obra Qvot Tvnas e o II Censo do PortugalTunas), desde o "boom" dos anos 1980 (tipologia dos grupos, vigência, dificuldades que hoje se apresentam...).

Mas outras questões prementes merecem igualmente atenção (englobando algumas das supra-referidas) que se prendem, por exemplo, com a imagem da Tuna (e do que é) que hoje temos:

- Identidade "Tuna", como questão da definição balizadora que, depois, infere em critérios musicais nos certames, em cartazes de festivais onde se vai perdendo a iconografia identitária, o desconhecimento/receio que leva à ausência de um pequeno historial do fenómeno nas páginas das tunas (antes existia, mas cheios de erros; agora há alguns, mas em páginas que nem sequer são de tunas - e também com erros)[4], a instrumentação utilizada (os abusos/desvios).
A ainda existente relação entre algumas tunas e as praxes (que levam a questões de nomenclatura, de praxes internas e, até, de traje - proibidos a caloiros, que ou originam problemas graves ou levam os grupos a práticas pouco consentâneas[5]);


Claro está que o leitor atento e informado logo pensará que um dos problemas inerentes ao ENT é que grande parte da produção de conteúdos, sobre os quais assenta este tipo de eventos, sai da lavra "sempre dos mesmos", mas é algo que não pode ser imputada a esses mesmos "de sempre" se, afinal, são os poucos que se dedicam a outras vertentes do mester tuneril.
Não há lugares reservados para quem quer trabalhar. Portanto, quem não se chega, não pode depois queixar-se de quem o faz. Ainda assim, há sempre gente nova que aparece com bons contributos (lembro-me, assim, de repente, do Daniel Sousa e do Rui Marques, com trabalhos académicos sobre Tunas) e a quem deve ser dada a oportunidade de partilhar e enriquecer-nos.


Volto a reiterar, na minha óptica, que é de se evitar palestras a solo (salvo se excepcionalmente pertinente), mas antes optar por um modelo  em jeito de painel, pois é muito mais interessante para o público seguir uma conversa onde a diversidade  e os ritmos de vários interlocutores evitam a monotonia e garante não se colocar sempre o tom em monocórdicas exposições.

Outra questão muito debatida, noutros tempos, era a pertinência dos "ateliers", que acabaram sendo considerados, e bem a meu ver, como algo de que pouco se retirava, sendo antes preferível o convívio tertuliar que prolongava os temas das palestras para fora do auditório (e não se confinava a ser mero pretexto para uma "borga" descomprometida).

E sublinho, para terminar, essa mais-valia do convívio que o ENT também proporciona(ava), muito para além do imediatismo de beber uns copos e tocar informalmente umas modas (para festinhas não há pachorra).
Se num certame não temos como escolher as pessoas com quem vamos estar (porque cada organização convida as tunas que bem quer), já o ENT permite uma maior escolha e disponibilidade para estarmos com as pessoas, sem stress de ter de afinar, de reunir Magister(s), de fazer check-sound, de ensaiar uma última vez........
O ENT não dá prémios (que são vaidades efémeras), mas dá outras coisas porventura bem mais importantes e perenes.






[1] O PortugalTunas, os blogues, sites dedicados à informação/formação - o que oferecem, as dificuldades, as críticas, o trabalho por detrás dessas páginas.....
[2] Que pode abordar o estado qualitativo do que se faz nas Tunas.
[3] Não apenas livros, mas também teses de mestrado e doutoramento.
[4] Significa que os protagonistas, também com dever de promoção e defesa da identidade, se demitem dessa tarefa
[5] Equivocadas sobre o que é Tradição, o que é próprio, resultante de desconhecerem o porquê das coisas (em matéria de praxe como de Tuna).

sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Estudantina de Coimbra em Salamanca em 1891

Como é apanágio de qualquer honesto investigador, sempre que novas descobertas venham contradizer algo já avançado, é dever dar à estampa essas mesma novidades.

Em artigo publicado há uns anos, aqui neste blogue, no qual se adiantava que a Estudantina de Coimbra fora extinta em 1890, também se avançava, e segundo a obra dos Irmãos Nascimento (2010, p.41), que, em 1891, houvera a tentativa de Jayme Leal em formar uma tuna composta exclusivamente de estudantes.
A falta de dados sobre essa tentativa sugeria que não dera frutos.
Afinal, temos constância de que a "Estudiantina de Coimbra " (não sabemos se exactamente com esse nome ou com a designação "Tuna", já que, em Espanha, nessa época, os periódicos apelidam "estudiantina" qualquer estudantina ou tuna portuguesa) esteve em Salamanca em Abril de 1891, dirigida por Simões Barbas, dando 2 concertos no teatro do liceu local.

Significa, portanto, que o hiato de inactividade tuneril que inicialmente se julgava ser entre finais de junho de 1890 e abril de 1894, afinal é mais curto.

El Adelanto, Ano VII, N.º 1360, de 03 de Abril de 1891, p.3.