sábado, 19 de fevereiro de 2022

Teses com Tunas ... sem rigor I

Já há tempo tínhamos aqui denunciado uma tese pejada de erros, evidenciando que o uso do tema das Tunas (tal como o das tradições académicas) não pode ser tratado de forma tão pouco rigorosa, mesmo quando não é o tema principal dos trabalhos académicos.

É que não apenas os proponentes mostram não dominar o assunto, como quem os orienta (e avalia) pouco ou nada sabe, também, do tema. 
Ora não basta que uma tese qualquer esteja perfeita a tratar do calçado dos tunos, se misturadas com  afirmações falsas sobre as Tunas em si (normalmente em intróitos pseudo-históricos). 
Os orientadores e avaliadores podem perceber muito de calçado, tal como o autor da tese (daí resultando um belíssimo trabalho e contributo para a indústria e cultura do calçado), mas isso não pode ser feito à custa de erros graves noutras áreas. 
99 cêntimos não são 1€.

Deste modo, ou bem que não se abordam as Tunas ou bem que, tratando-as, tal deve ser feito com rigor e devidamente escrutinado, sob pena de descredibilizar quem faz, quem avalia e quem publica documentos desta natureza.
Uma questão de respeito, seriedade e competência que permita aferir, devidamente, os trabalhos propostos, evitando que passem, com chancela de verdade, afirmações erróneas.

É aqui o caso desta tese
(Tunas Académicas: Condicionalismos da Voz) que comprova que sobre o melhor pano caia nódoa.
Logo na introdução um erro total e absoluto, afirmando que Tunas são grupos constituídos por estudantes universitários, não havendo sequer suporte documental mencionado (seja em nota de rodapé seja na bibliografia). Uma afirmação que pode induzir na ideia que Tunas são apenas esses grupos constituídos por estudantes universitários. Nada mais falso!

A cultura do achismo e do facilitismo que parece querer penetrar no seio das Universidades é, no mínimo, inquietante.
Uma vez mais, não é por falta de documentação na Net, e em português, que a qualidade dos temas que tratam/referem Tunas não são melhores.

Não, as Tunas não são grupos musicais constituídos
 de estudantes universitários!
Podem também ser, mas não são sequer um exclusivo dos estudantes, como a história no lo demonstra, os documentos no lo comprovam, os factos no lo demonstram.




Fica, pois, um alerta: quando se pretender desenvolver um qualquer trabalho que mencione Tunas, mesmo que num plano secundário, coloque-se o mesmo rigor que para o resto do conteúdo da área a que se destina o documento.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Da qualidade musical das tunas académicas portuguesas.

Um parêntesis para um artigo de opinião/reflexão.

 

Quando nos pomos a reflectir sobre esta questão, amiúde mencionada, já, por diversas pessoas (nomeadamente em podcasts ou similares), acabamos, quase, sempre por bater no mesmo destino: a qualidade das tunas portuguesas melhorou e é muito boa.

Mas será que corresponde totalmente ou não estará essa ideia "contaminada"? Cliché, meia verdade ou facto comprovado?

É certo, e de comum senso, creio, que as nossas tunas académicas melhoraram significativamente a qualidade do seu trabalho musical, se compararmos o que foi a época do "boom" da década de 1980-90, com fases posteriores ao mesmo.

Há, de uma maneira geral, uma evolução positiva, passada que foi a época experimentalista e amadora do fenómeno em pleno ressurgimento.

Parece generalizada a ideia de já estarmos bastante distantes das coisas feitas mais por carolice e improvisação em que os critérios de "draft", para integrar uma tuna, colocavam a par o ser-se bom músico com o ser-se um tipo fixe, cheio de espírito académico (mesmo que fosse um zero em termos artísticos). Longe parece estarmos  dos repertórios rudimentares e dos cordofones tocados como se fossem presuntos.

Tenderia a concordar, pois há evidencias disso.

Essa melhoria que se foi registando, era tanto mais comprovada pelo facto de, a partir de determinada altura, as tunas portuguesas começarem a figurar mais vezes como vencedoras de prémios do que as suas congéneres espanholas (ou de outros países) que, durante largos anos, limpavam tudo, quando participavam.

A partir de determinada altura, foi precisamente o inverso que se começou a registar e confirmar.

Mas foi algo transversal a toda a comunidade?

 

Será que foi, e é, tudo assim tão líquido para esta ideia globalmente aceite que coloca a qualidade média da tuna portuguesa no topo de desempenho musical?

Grosso modo, e generalizando, teríamos a tentação de dizer que sim, pois é fácil e apetecível a sinédoque (tomar a parte pelo todo), só que valerá a pena fazer um "zoom out", antes de "embandeirar em arco" e fazer bengala de clichés que, por mais que possam ser reconfortantes, podem induzir em equívocos.

Ao longo das últimas décadas (desde 1983 em diante), Portugal contou, em média, com 200 tunas activas (mais coisa menos coisa) - sempre acima desse n.º, a partir de 1998 (Vd. Qvot Tvnas,2019).

Será que podemos, tacitamente, afirmar que, pelo menos, metade delas (100) esteve sempre num nível superior de qualidade? Que essa metade, em média, era superior, em qualidade, à média do que faziam tunas de outros países (nomeadamente do país vizinho)?

Tenho sérias dúvidas disso. Até por uma razão: a larga maioria das tunas espanholas ou de outros países são ilustres desconhecidas para a maioria das pessoas (portanto eram considerandos feitos a olho, tomando, também aqui, a parte pelo todo), onde me incluo. Também neste particular, temos tendência a tomar a parte pelo todo (e, devido a questões financeiras, não olvidemos que cada vez menos tunas estrangeiras têm pisado terras lusas e cada vez menos tunas portuguesas têm participado em certames fora do país).

Creio que vivemos demasiado de uma ideia de "grande qualidade das tunas portuguesas" que, afinal, poderá apenas dizer respeito a um punhado de tunas, essas sim, de superior, e consensual, valia em termos artísticos.

Nestas coisas, contudo, é sempre difícil (mesmo impossível) quantificar com exactidão (nem é esse o intuito).

Houve, aliás, quem tivesse, há uns anos, a presunção de propor rankings tuneris - coisa néscia e ridícula.

Ainda assim, mesmo que pegássemos nessas listagens tontas, estaríamos a falar, quando muito, de umas 50 tunas, mais coisa menos coisa (se a memória não me falha), com as devidas flutuações (tunas que ora estão uns anos no topo ora definham ora fazem travessia no deserto antes de voltar a ter destaque).

Será que podemos, de facto, afirmar que a qualidade das tunas académicas portuguesas é, em média, boa (ou muito boa) ou não estaremos, porventura, a usar uma amostra que não é assim tão representativa do todo?

Que temos tunas "do outro mundo", capazes de ombrear com o que de melhor se faz noutros países, isso sabemos. Temos várias; são bastantes, mas, no bolo total de tunas existentes, ao longo das últimas 3 décadas, essa ideia de "grande qualidade" não terá sido, antes, excepção do que regra?

Não nos andámos a iludir e a cavalgar em cima de clichés, numa lógica futebolística de pueril afirmação?

Da experiência que tenho e do que vou ouvindo, quando é preciso pedir a alguém que identifique as melhores tunas que conhece, normalmente a lista começa a esgotar-se a partir das duas dezenas de nomes. Normalmente, também, é-se tendencioso (muitas vezes incluindo a sua própria - numa aferição feita mais com o coração que com a razão).

Todos acabamos por coincidir numa determinada quantidade de tunas como referências de qualidade (momentânea ou que perdura ao longo dos anos), mas a lista é sempre demasiado curta para suportar uma generalização que temos tendência a fazer, quando toca a comparar a realidade lusitana com outras.

Se, nestas coisas, a questão de gosto é sempre algo relativo, não deixa de ser possível inserir critérios, mais ou menos balizados, para atestar da qualidade musical (pelo menos quando se tem alguma formação musical), mas é algo que implica uma nem sempre fácil isenção.

A qualidade do arranjo, a qualidade literária (quase totalmente ignorada), a qualidade de execução/interpretação ..... são aspectos sempre a ter em conta, em detrimento de "shows visuais" que, tendo seu lugar, podem tolher a apreciação estritamente musical.

Seja presencialmente nos certames e demais espectáculos, seja visualizando pela net ou ouvindo os trabalhos fonográficos, são diversos os caminhos que possibilitam apreciar o trabalho que se veio fazendo, e se faz.

Não tenho assim tanta certeza que a nossa Tuna académica possa ser inequivocamente rotulada de muito boa (e mesmo de "boa" tenho fortes reservas), pois se, pessoalmente, reconheço haver muita qualidade nas nossas tunas, esta acaba por ficar reduzida a uma amostra bastante reduzida face ao n.º de grupos no activo.

Poderemos dizer que, em muitos casos, isso não é o mais importante. Poderá não ser. Depende, é verdade, dos propósitos de cada grupo e da forma de cada um encara a participação no mesmo. Uns privilegiam mais o convívio, outros a música, outros isto ou aquilo.

Mas como a Tuna é, em primeiro lugar (e acima de tudo) uma expressão musical, creio ser mais natural que os critérios de exigência musical sejam prioritários (pelo menos para alguns - e daí resultando que esses, acabam, precisamente, por ser tidos como exemplo de qualidade).

Não ignoro que cada qual também só faz omeletes conforme a disponibilidade de ovos. Há quem os tenha e faça. Há quem tenha poucos e faça em função disso; há quem tenha 3 ou 4 e ache que vai dar para uma omelete que alimente 10 pessoas .... e quem pretenda fazer omeletes sem ovos ou nem saiba sequer cozinhar).

Há de tudo, como é normal.

Aliás, ainda bem que não é a qualidade que define o que é uma tuna, pois cada um faz conforme pode e sabe, com as ferramentas que dispõe. Todos, à sua medida, contribuem para a vitalidade e continuidade do fenómeno. Haver margem de progressão permite, precisamente, que o que hoje é fraco se possa a tornar forte amanhã.

O que devemos evitar é cair nessa fabulação, e nessa ideia feita, que a Tuna portuguesa tem uma grande qualidade, metendo tudo no mesmo saco (num politicamente correcto que é ilusório e pode promover a apatia face a um necessário olhar crítico e auto-crítico).

Portanto, o que não podemos, nem devemos, creio, é encher a boca com clichés, quando não correspondem (ou podem não corresponder) à realidade, por mais cativantes que possam parecer.

Temos das melhores tunas do mundo, mas a amostra, quanto a mim, não permite afirmar que a Tuna Portuguesa tem uma qualidade globalmente boa ou muito boa, pois não é bem isso que tenho registado no que ouço e vejo ao longo dos últimos 30 anos.


Se, a partir de 1998, Portugal registou um n.º de tunas académicas sempre acima das 250, tenho cá para mim que, quando muito (e são contas por excesso), teremos um lote de umas 50 tunas elegíveis como sendo de boa ou muito boa qualidade (pessoalmente fico-me por umas duas dezenas). Um quinto, portanto (e se tanto), do total.

Cada um faça a sua reflexão.

Prefiro, assim, a segurança de dizer que Portugal tem muito boas tunas, das melhores do mundo, mas não comungo da ideia que isso representa a realidade da Tuna portuguesa como um todo (que considero, artisticamente, mediana e, em demasiados casos, musicalmente medíocre).

 

Mas isso sou eu.


quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

A Estudiantina Fígaro no Uruguai, 1885

 Alguns dados, colhidos na imprensa uruguaia, sobre a passagem da Estudiantina Española Fígaro por aquelas terras, em 1885.


 El Indiscreto, Ano II, N.º 42, de 15 de Março de 1885, p. 83.


El Indiscreto, Ano II, N.º 47, de 19 de Abril de 1885, p. 127.

El Indiscreto, Ano II, N.º 48, de 26 de Abril de 1885, p. 135.


 El Indiscreto, Ano II, N.º 53, de 31 de Maio de 1885, p. 175.


Ainda um dado curioso, mas de 1886:


Montevideo Musical, Ano I, N.º 36, de 24 de Fevereiro de 1886, p. 287.



sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

O Ano Tuneril de 2021 em revista.

Findou o ano de 2021.

Mais um ano onde se viveu sob a sombra da pandemia e que, apesar de melhor (face ao ano anterior de 2020) para o mundo tuneril, ainda assim não permitiu um arranque em força da comunidade, dado que a Covid19 acabou por cercear muitos projecos (nomeadamente efemérides e certames).

Houve, ainda assim, direito a alguns certames presenciais (como por exemplo o IV AFTA; o V Tunão; o XVII Tudo isto é Tuna; XXX FITU Bracara Augusta; XVII FESTUBI; XIX Marias; XXV Trovas; XI Capas Ricas;  XXXV FITU do Porto; VI FITU de Lamego; XII Tosta Mista de Viseu) e iniciativas (como o III Acordes Solidários e o VIII RAUSS&TUNA'S - também solidário, ou a iniciativa da Tuna Maria para celebrar o Dia Internacional da Mulher), mas em dose reduzida face ao que se esperava. Apenas salientar que, no que concerne à participação de tunas portuguesas em certames fora do país, tivemos a Tuna de Veteranos de Viana do Castelo no XXIV Certamen Internacional de Cuarentunas de Compostela, realizado em 26 e 27 de Novembro.

Alguns aniversários, marcando, entre outros, os 20 anos da Tuna Templária (com direito a exposição fotográfica comemorativa) da TAIPCA, da ESTuna e da Estatuna; os 25 da Quantuna, Barítuna, Gatunos, TeSuna, Phartuna e in'Spiritus Tuna (a coincidir com o seu XI Capas Ricas);  e o 30º aniversário da TAULP, RTUB, TMUP,  bem como do Real Tunel Académico e da Infantuna (ambas de Viseu).

Não conseguindo apurar todas (muitas, entretanto, não têm dado sinal de vida - ou pelo menos não tenho delas tido notícia) ficam os parabéns a estas e demais que me possa ter esquecido.


Outro aniversário foi o dos 10 anos de lançamento da obra "QVID TVNAE?", de que se espera (para breve?) uma edição revista e aumentada, já que os trabalhos já foram iniciados nesse sentido há um par de anos.

Neste ano de 2021, parte das despesas tuneris ficaram, uma vez mais a cargo do PortugalTunas (de que assomam 2 figuras cimeiras do nosso panorama: Ricardo Tavares e José Rosado), mais precisamente do seu canal PTV, dando seguimento às emissões do "Tunices" e estreando, em Junho, uma nova rubrica sob a designação de "Filhos do Boom". Mas não olvidamos o podcast levado a cabo pela Tuna Feminina de Letras do Porto, sob o nome de "Com todas as letras" e com 12 emissões realizadas.

No que concerne à investigação, o ano viu nascer formalmente a AHT (Academia de História da Tuna), a qual reúne investigadores de vários países, tendo já produzido alguns conteúdos, mas ainda embrionária nesta fase.

Depois, para além das publicações dos blogues "As Minhas Aventuras na Tunolândia" e "Além Tunas" (deste último destacaria um artigo que faz o resumo da história e evolução da Tuna no mundo), além da actividade do MFT (Museu Fonográfico Tuneril), o lançamento, em Novembro passado, de mais um livro: "A Tuna Académica da Escola Politécnica de Lisboa - Vigência, actividade e protagonistas.", da minha lavra e, uma vez mais, distribuído em formato PDF gratuito.

Do lado da produção fonográfica, a registar o lançamento, em Agosto, de um  EP em plataforma digital “Ao Vivo – VIInstância”, pela mão da Tuna da FEUC e de um trabalho, lançado a 01 de Novembro, pela Tuna Universitária do Porto, com o título "Estúdio Atlântico", mas em formato digital, pelo que se espera o aparecimento de exemplares físicos do dito CD.

À espera continuamos do CD "A Fuga", por parte dos Gatunos-Tuna Académica do Politécnico do Porto

O ano terminou com o tema da Tuna como putativa candidata a Património Imaterial da UNESCO, surgindo alguma polémica no ar, já que o que era anunciado como a suposta candidatura da Tuna em termos globais (reunindo os países com essa tradição), afinal resultou  não apenas em não haver candidatura alguma de facto, como a mesma só era exequível sob proposta de um só país, segundo as regras da UNESCO (e cujo logótipo foi, até, abusivamente utilizado em ridículas campanhas de spam). Uma mão cheia de nada, como está bom de ver.

Nesse sentido, o PortugalTunas lançou uma consulta online para se aferir do acolhimento que teria uma eventual candidatura da Tuna Portuguesa (dada a sua singular história ininterrupta e possuir as tunas mais antigas do mundo em actividade, quer civis, liceais e universitárias). Uma consulta sobre a Tuna portuguesa que não caiu no erro de apenas considerar tunas universitárias, mas todas.

Os mais atentos terão certamente reparado que o mês forte de 2021, para as tunas, foi sobretudo Novembro, mês onde coincidiram inúmeras iniciativas de relevo, acima mencionadas.

Em termos estritamente pessoais, foi um Annus horribilis, tendo a lamentar a perda de 2 familiares muito próximos, além de, mais recentemente, ter partido o meu grande amigo, Sr. Raúl Nunes, dono da mais famosa tasca de Viseu, o Bóquinhas (espaço incontornável da boémia académica e tunante da cidade, e não só). 

Mas a vida é feita destas coisas, pelo que nos resta esperar que o próximo ano seja melhor que este que agora termina (o que não será difícil, diga-se) e possa ver realizados muitos e bons projectos por parte da comunidade tunante portuguesa.

 

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

De Estudiantinas a Tunas - origem, evolução e conceito.

 EstudiantinaQuando usado como substantivo, este término designa originalmente um grupo de estudantes (chegando a também designar as quadrilhas de estudantes cuja actividade era menos "recomendada" - e que em Portugal se poderiam assemelhar aos arcaicos "ranchos"/trupes").

Quando usado como adjetivo, serve para caracterizar algo ligado aos estudantes ("hambre estudiantina" - fome estudantil; "greve estudiantina" - greve estudantil; "fiesta estudiantina" - festa estudantil, etc.).

 

(Comparsas) Estudiantinas - As estudiantinas surgem em Espanha ligadas a festividades, logo nas primeiras décadas de 1800 (a 1.ª detectada, segundo investigação de Rafael Asencio, é uma estudiantina de San Sebastián del Jueves - no Carnaval de 1816), mas é sobretudo a partir da década de 1830, quando as denominadas "festas de máscaras" passam a ser novamente permitidas, sob o reinado da regente Maria Cristina (a qual dá ao Presidentes de Câmara e Governadores regionais o poder de autorizar esse tipo de festividades), que este tipo de grupos se dissemina.

Essas festas, em que as pessoas se mascaravam e desfilavam em alegres arruadas e cortejos, ocorriam em celebrações periódicas (S. Pedro, S. João, Natal e Carnaval) ou em eventos especiais (nascimento ou casamento real, inaugurações, etc.).

Nessas festas  participavam e desfilavam comparsas, ou seja grupos mais ou menos organizados que se caracterizavam pelo seu lado burlesco, pantomineiro, alegórico (com quadros representativos, a lembrar os momos medievais) e picaresco (onde a crítica social não faltava, por vezes de forma muito mordaz), vestindo-se conforme o tema que queriam retratar (padeiros, padres, clérigos, nobres.... e estudantes).

Ora foi precisamente aos grupos (comparsas) que saíam a retratar ou caricaturar os estudantes que se deu o nome de "estudiantinas", porque os seus membros se vestiam a imitar os estudantes (dentro das possibilidades que cada um tinha de arranjar uma roupagem que fizesse lembrar os trajes estudantis).

Estas comparsas faziam-se acompanhar de todo o tipo de instrumentos que ajudassem a "fazer barulho", para animar os cortejos em que participavam. Pífaros, bombos, cornetas, instrumentos de corda e todo o tipo de percussão, a acompanhar cânticos alegres, mas muitas das vezes carregados de críticas e ataques ao poder instituído.

Com o tempo, e de forma mais organizada, sobretudo  quando a actividade servia objectivos caritativos ou era de maior importância, começaram a contratar bandas para os acompanhar, dando, assim, maior brio e credibilidade ao peditório.

Normal, portanto, que no Carnaval (época em que há inversão de papéis: o rico veste-se de pobre e o pobre de rico), uma das figuras retratadas pelo povo fossem os estudantes (que gozavam de prestígio junto da sociedade).

Estamos, pois, perante um fenómeno popular festivo, carnavalesco, daí que seja lícito (e factual) dizer que as estudiantinas, como comparsas que eram, nasceram no meio popular.

A transformação desses grupos em orquestras de plectro foi um processo lento, mas muito influenciado pelo movimento orfeónico que se fazia sentir pela Europa (além do facto de ficar mais barato aos protagonistas assumirem as despesas de tocar do que pagar a terceiros).


E os estudantes?

 

Os estudantes também saíam à rua, mas raramente vestidos como tal, como é natural, pois as festas de máscaras eram precisamente o exercício do jogo de inversão social.

Havia comparsas de estudantes, mas usualmente vestidos com outras temáticas (zuavos, mosqueteiros, Pierrots....).

Embora já existissem pontualmente, só sensivelmente a partir da década de 1870 os estudantes, com traje, decidem, de forma mais regular, assumir-se como tal nessas comparsas (mas cujo número de grupos é ainda reduzido face aos restantes).

Nessa época, porém, as Estudiantinas gozavam de má fama.

Com efeito, eram muitas as que se formavam sob pretensa ideia de caridade, mas depois davam outro destino às esmolas (bebida, comida...), além de a população ficar agastada com os cada vez mais frequentes casos de assédio por parte desses grupos que pediam de forma demasiado insistente (numa versão grotesca do "Tric or treat"), importunavam as pessoas e insistiam "ad nauseam" no "peditório", e com muitos desses grupos a apresentarem-se falsamente como estudantes (o que desagradava a quem era enganado e ainda mais aos estudantes cuja imagem fica em causa).

 



De comparsas a grupos musicais / orquestras de plecro

De (Comparsas) Estudiantinas de Carnaval a Estudiantinas "Musicais"

 

A essa má fama era preciso contrapor uma nova imagem que recuperasse a credibilidade.

Uma das formas de o fazer foi transformar esses grupos em algo mais do que comparsas de Carnaval.

Surgem, portanto, as estudiantinas como tipologia orquestral, como grupos artísticos/musicais que se davam em concerto (usualmente em sala).

Apostando em apresentarem-se em concertos e espectáculos em sala, quase sempre para acudir a razões de ordem caritativa (a favor de pobres, de vítimas de desastres naturais, de viúvas e órfãos de guerra....), com repertório trabalhado com qualidade e rigor, as estudiantinas vão-se transformando e ganhando nova identidade.

O grande salto é dado com a Estudiantina Española que vai a Paris, no Carnaval de 1878 (com enorme eco na imprensa mundial), logo seguida pela mais famosa das estudiantinas: a Estudiantina Española Fígaro - um grupo que aproveita a fama do anterior e, trajado como os estudantes (embora se tratasse de um grupo civil), inicia um processo de "polinização" mundial que vai dar novo fôlego ao movimento orfeónico das orquestras de plectro pelo globo e espalhar a designação "estudiantina" como nomenclatura identificativa de grupos formados segundo um determinado leque instrumental (e cujo traje passa a ser copiado pelos grupos estudantis).

Nenhum outro grupo, diga-se, gozou de tamanha fama e teve papel mais preponderante na divulgação e promoção deste tipo de agrupamento (deixando na sua esteira dezenas de estudiantinas que, entretanto, se formaram, por sua influência, um pouco por todo o mundo). 

O repertório das estudiantinas passa a ser quase esmagadoramente instrumental (embora haja temas cantados), privilegiando peças ao gosto do público da época (grandes obras de compositores clássicos, a par de "aires nacionales" e outras  compostas propositadamente pelos respectivos maestros). Para o executar, os grupos passam a eleger instrumentos mais nobres (cordofones plectrados, dedilhados e friccionados, flautas leves...sem esquecer, nos grupos estudantis, a pandeireta). Um fenómeno que se observa em todas as latitudes.

Nessa década de 1870, os estudantes, sentindo-se apoucados, e querendo distinguir-se dos grupos civis, decidem associar o termo "Tuna" aos seus grupos, de modo a identificarem-se como estudiantinas compostas de verdadeiros estudantes.

Recuperam, portanto, um termo ainda muito presente no imaginário colectivo espanhol, onde a figura romantizada do estudante pedinte (que vivia a "correr la tuna") auferia de algum prestígio.

Esse "correr la tuna", no entanto, não fora nunca um exclusivo dos estudantes. 

"Correr la tuna" (que significa "correr/andar atrás de esmola") era algo praticado por todas as frágeis franjas sociais, mas como o estudante gozava, nessa altura, de protecção (foro académico) e de prestígio (porque era letrado), emergiu como figura mais destacada desse modo de vida (sem esquecer os estudantes que, não sendo pobres, professavam esse modo de vida pelo seu lado aventureiro e marginal). Mas fique claro que "tuno" não era sinónimo exclusivo de "estudante", havendo "tunos" que viviam o "correr la tuna" que de estudantes nada tinham.

Nessa época, essa actividade raramente implicava música. Os estudantes destacavam-se dos demais por, graças aos seus conhecimentos literários e científicos, mais facilmente entreterem ou enganarem as pessoas com falsas rezas curativas (numa salgalhada de latim macarrónico e palavras noutras línguas que soubessem), com previsões astrológicas, com algum truque de magia (pelo menos aos olhos do povo ignorante); pessoas essas que, mesmo quando percebiam haver "marosca", tinham para com os estudantes uma postura mais transigente e compassiva.

Recordemos que o termo "correr la tuna" (andar à tuna) ou "tunante" era (e ainda é, em alguns casos) associado, nos dicionários e na imprensa, a vadiagem, extorsão, má vida, fraude, má índole, charlatão, impostor, etc.

Não será despiciente recordar que o adjectivo "gatuno", proveniente do espanhol (e derivado de "gato"), e que também em português significa larápio/ladrão/malicioso, não deixa de ter uma certa similitude com "tuno", estando igualmente ligado ao embuste, engano e roubo.

Tuna não é, pois, um termo da gíria estudantil, ao contrário de "estudiantina", cujo significado remete directamente para o âmbito escolar e pertence à família e área vocabular de "estudante".

Quando, portanto, alguns pretendem que "Tuna" é um exclusivo estudantil, fazem-no por desconhecimento, pois se há termo que realmente designa um grupo de estudantes é "estudiantina/estudantina". O termo "Tuna" não pertence ao âmbito estudantil per si.

 



Tuna - quando o termo começa a ser adoptado, em Espanha, é-o quase sempre colado ao termo "Estudiantina", daí termos grupos apelidados de "Estudiantina Tuna Escolar de....", "Tuna Estudiantina da Faculdade de....", para designar a natureza da estudiantina em causa.

Em Espanha, esse processo de transição leva algumas décadas, sendo preciso esperar praticamente pelo fim da Guerra Civil e instauração do novo regime político (ditadura de Franco) para que os grupos estudantis (universitários, sobretudo) deixassem cair o termo "estudiantina". É, aliás, durante a ditadura franquista  que  as Tunas passam a ter um carácter mais permanente e institucionalizado (muitas das hoje existentes forma fundadas nessa época), ou seja já não são grupos sazonais, mas que desenvolvem uma actividade mais continuada no tempo (a que a organização de certames não é alheia).

Mas não se pense que os grupos civis se ficaram. Também eles, naturalmente, foram adoptando (em Espanha como por cá) essa nova designação, registando-se inúmeros grupos populares (ainda hoje) designados de "Tuna".

Esse mesmo processo sucedeu em Portugal, só que muito mais rapidamente. Se, já em finais do séc. XIX, nascem grupos com essa denominação, a partir de 1900 já não se registam grupos com a designação "Estudantina" (e todos mudaram ou para "Tuna" ou assim se passaram a chamar quando foram criados).

Um processo natural de imitação e troca de influências que sempre ocorreu.

Por esse mundo fora, o processo teve 2 caminhos distintos.

Na Europa e algumas outras geografias, sobretudo (mas não só) por influência da "Fígaro", e desde finais do séc. XIX, encontramos milhares de orquestras de plectro desginadas de estudiantinas.

Vamos, aliás, encontrá-las como categoria instrumental (tipologia orquestral), nos inúmeros concursos internacionais de música, a partir da década de 1880, em que, a par com concursos para fanfarras, filarmónicas, coros, orquestras de câmara, etc., há-os também para "Estudiantinas" (tanto com esse nome como com outros sinónimos: mandolinatas, circolo mandolinístico, orquestra de bandolins, tuna...), com regulamentos muito rígidos quanto à composição instrumental e, assim, definindo o que era e não era Estudiantina (ou seja Tuna). Regulamentos que são transversais em França (onde chega a existir uma Federação Nacional de Estudiantinas e uma União Federal de Estudiantinas Manolinísticas e Guitarristas, inseridas na Federação Musical de França), Itália, Bélgica, Luxemburgo, Suiça, países do Magreb ... e que alicerçam a definição estrita deste tipo de grupos.

Na América Latina, onde também encontramos estudiantinas (civis e escolares/académicas) desde, pelo menos, a 2.ª metade do séc. XIX (por influência da emigração espanhola e, mais tarde, pela passagem da "Fígaro"), só a partir, grosso modo, da década de 1960 o termo "Tuna" começa a ser usado, fruto da influência das visitas de algumas tunas universitárias espanholas (sobretudo madrilenas) àquele continente. Até lá, usa-se comummente a designação "Estudiantina de la Universidad/de la Faculdad/del Instituto ..." (como ainda hoje as há assim designadas e que são tão tuna quanto as demais).

Essa chegada e adopção tardia do termo induziu muito gente daquelas latitudes na ideia que "Tuna" era uma designação exclusiva de grupos universitários.

O termo "Tuna", portanto, como designativo de grupo artístico (sinónimo de "estudiantina"), só se disseminou inicialmente (e até à década de 1960) na Península Ibérica.

Nota: em 1914, o termo "Tuna" surge no Dicionário de Autoridade da Academia Espanhola (p. 1017) como sinónimo de estudiantina (sendo aliás o 2.º signiticado do termo, após o de "vida holgazana, libre y vagamunda").




Em Portugal

Se, em Espanha, fruto das condicionantes políticas e de organização social impostas pelo regime, se destacam as Tunas de feição escolar (com o tempo, cada vez mais coladas ao contexto universitário), relegando para uma espécie de "limbo" as tunas civis, já em Portugal as estudiantinas/tunas não ficam sujeitas a qualquer "apartheid" social ou político.

Portugal, aliás, é um caso singular em que quer as primeiras estudantinas  são civis (como em Espanha), quer os primeiros grupos a chamar-se "Tuna" também o são.

Não significa que haja uma grande distancia temporal, mas as primeiras evidências encontradas apontam para isso.

Mesmo sabendo-se que, numa primeira fase (os indícios levam-nos a crer que as primeiras estudantinas civis surgem a partir da 2.ª metade do séc. XIX), eram grupos sazonais,  só se tem constância de estudantinas formadas por estudantes a partir de finais da década de 1870 (de 1878 em diante), embora de cariz efémero.

Quando o processo começa a consolidar-se, ocorre primeiro em grupos civis e, pouco depois, no foro escolar - este último a partir de finais da década de 1880, iniciando-se, aí, o 1.º "boom" de Tunas Académicas (muito impulsionado pelas visitas da Tuna Compostelana, em 1888, 1890, 1895, 1901, 1904, 1906; Tuna de Madrid, em 1889 e 1906; Tuna de Salamanca, em 1890, 1907, 1908 e 1909; Tuna de Sevilha, em 1891; Tuna de Zamora em 1892; Tuna de Valhadolid, em 1902 e 1910; Tuna de Valência, em 1905 e Tuna de Córdova, em 1905).

Em Portugal, as primeiras Tunas são, portanto, populares.

Mais tarde, surgem os grupos escolares (alguns de natureza  universitária - embora em menor número), sobretudo no meio liceal.

Esse fenómeno escolar atravessa todo o século XX, sendo que, a partir de 1945 (depois de extinta a TAL - Tuna Académica de Lisboa), só 2 tunas universitárias subsistem (a TAUC -Tuna Académica da Universidade de Coimbra e a TUP - Tuna Universitária do Porto) no meio do contingente de tunas de liceu.

O fenómeno tuneril português é, pois, maioritariamente composto de grupos civis e grupos escolares não universitários (de colégios e de liceus).

Só a partir de meados da década de 1980 é que as tunas universitárias emergem em força (e se inicia o considerado 2.º "boom" de tunas académicas), num contexto em que as tunas de liceu quase desaparecem (subsistindo a TALE - Tuna Académica do Liceu de Évora) e as tunas populares acabam por ficar muito reduzidas (já depois de terem sofrido uma enorme diminuição na década de 1960, fruto, entre outras coisas, da emigração e da guerra colonial).




O lugar das Mulheres

 

Desde o início que as estudiantinas aparecem formadas também com mulheres, e também com crianças.

Sendo grupos não sujeitos a regras rígidas (até porque de cariz festivo e carnavalesco e, por isso, propícios a troca de papéis), é normal que encontremos nesses grupos mulheres, homens e crianças, ora misturados ora organizados distintamente.

Mesmo depois, com a evolução para grupos artísticos, vamos encontrar estudiantinas formadas de modo misto ou, então, só por mulheres ou só por jovens/crianças.

Desde o séc. XIX que há estudiantinas/tunas de mulheres.

O que não há ainda são Tunas Universitárias femininas, em razão apenas do facto de o n.º de mulheres na Universidade só mais tardiamente ser expressivo e poder alimentar a criação de grupos  exclusivamente femininos. O que vamos ver aparecendo, nomeadamente em Espanha, a partir sobretudo da década de 1940, são Tunas masculinas em que começam a aparecer algumas mulheres pelo meio (mistas, portanto), para, alguns anos depois (década de 1950 em diante), surgirem os primeiros grupos universitários exclusivamente femininos.

Tunas ou Estudantinas escolares e/ou universitárias com mulheres são, há pelo menos um século, uma realidade, portanto tão legítima quanto os grupos apenas compostos por homens.



 

RESUMINDO

 

- Tudo começa em Espanha, com as Comparsas das festas de máscaras  (sem cariz musical), sobretudo no Carnaval.

Algumas dessas comparsas, por caricaturarem os estudantes, passam a designar-se Estudiantinas.

- Aos poucos, essas estudiantinas transformam-se em grupos artísticos e abandonam o seu carácter carnavalesco.

- O modelo é sobretudo disseminado por um grupo civil vestido de estudantes: a Estudiantina Española Fígaro, que servirá de referência quer na indumentária quer no repertório e tipologia instrumental.

- Os estudantes, a partir de 1870, querem distinguir as suas estudantinas e repescam um termo não estudantil para as designar: Tuna.

Estamos pois perante estudiantinas de estudantes, mas com uma nova designação adicional. Trata-se, contudo, da mesma tipologia.

- Apesar da intenção em distinguir esses grupos estudantis, o termo é também apropriado pelos grupos civis (um processo com maior penetração em Portugal).

- Em Espanha, por força do controlo estatal da ditadura franquista da vida académica, e não só, e com vista a exportar uma ideia de Espanha hidalga e secular, as Tunas são apresentadas como expoente de uma centenária tradição universitária, relegando todas as demais a meras "estudiantinas" (é nessa altura que se consolida e cristaliza uma narrativa ficcionada e romantizada da Tuna como algo proveniente da idade média, exclusiva da Universidade e de varões, com vista a conferir uma centenária "história" brasonada à mesma).

- Pelo mundo fora, a partir de finais do séc. XIX alicerça-se o conceito e significado de "estudiantina" como designativo de orquestra de plectro.

- Na América Latina (hispano-americana, sobretudo), onde há "estudiantinas" desde as primeiras décadas do séc. XIX,  o termo "Tuna" só se começa a implementar na década de 1960, após a visita de várias tunas universitárias espanholas (dando a ideia errónea de ser uma tipologia diferente de "estudiantina" e, portanto, exclusiva de grupo universitário).

- Na prática, uma Tuna é uma estudantina, e em nada dela diferindo senão (em teoria) pelos membros que a formam (e que poderão usar um traje mais identificativo dessa natureza). Não são pois os ritos que definem uma tuna ou estudantina, nem praxis interna que dá chancela tunante.

Ambas as designações remetem para uma tipologia orquestral que é rigorosamente a mesma.

- Em Portugal, nunca houve atritos ou tentativas de expurgar os grupos populares ou não universitários, sendo que ninguém se arrogou detentor da designação "Tuna".

Por essa mesma razão é que os grupos compostos por estudantes (chamem-se eles "Estudantina" ou "Tuna") adendam a essa designação os termos "Académica", "Universitária", "da Faculdade...", etc., bastando isso para distinguir a natureza do grupo (a par do traje).

São, aliás, portuguesas as Tunas mais antigas com actividade ininterrupta, quase todas elas civis (embora também apresentando as mais antigas Tunas escolares e as mais antigas Tunas de cariz universitário).

- As Tunas / Estudantinas compostas por mulheres (mas também as mistas) são tão legítimas, histórica e socialmente, quanto as apenas formadas por varões, tendo mais de 1 século de existência.

 


REFERÊNCIAS:

ASENCIO GONZÁLEZ, Rafael  - Las Estudiantinas del Antiguo Carnaval Alicantino - Origen, contenido lírico y actividad benéfica (1860-1936). Cátedra Arzobispo Loazes, Universidad de Alicante, 2013.

----------------------------------------  - De las comparsas de estudiantes a las Estudiantinas. Ponência (vídeo no Youtube), Málaga 2014.

----------------------------------------  - El Origen de las Tunas y Estudiantinas Parte I e Parte II. Conferência (vídeo no Youtube) promovida pela Asssociação Tunos Decanos de Iberoamerica, Agosto de 2020.

COELHO, Eduardo, SILVA, Jean-Pierre, TAVARES, Ricardo, SOUSA, João Paulo - QVID TUNAE? A Tuna Estudantil em Portugal. CoSaGaPe, 2011-12.

MARQUES, Rui Filipe Duarte - TUNAS EM PORTUGAL, ESPAÇOS DE CONSTRUÇÃO, NEGOCIAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL ATRAVÉS DA MÚSICA. Um estudo sobre a Tuna Souselense. Universidade de Aveiro, 2019.

MARTÍNEZ DEL RIO, Roberto; ASENCIO, Rafael [et al.] – Tradiciones en la antigua Universidad: Estudiantes, matraquistas y tunos. Alicante: Ediciones Universidad de Alicante, 2004.

RAMÓN RICART, Andreu – Estudiantinas Chilenas. Origen, desarrollo y vigencia (1884 1955). Santiago de Chile: Ed. Fondart, 1995.

RENDÓN MARIN, Hector – De liras a cuerdas. Una historia social de la música através de las estudiantinas, 1940 1980. Medellín: Universidad Nacional de Colombia, 2009.

SARDINHA, José Alberto - Tunas do Marão. Tradisom, 2005 

SÁRRAGA, Félix O. Martin - Mitos y evidencia histórica sobre las Tunas y Estudiantinas. TVNAE MVNDI, Cauces Editores. Lima, Perú, 2016.

---------------------------------------  - Las Tunas españolas anteriores a las del S.E.U. no tuvieron actividad continuada demostrada en el tiempo. Tvnae Mvndi, (Artigo de 2016).

SILVA, Jean-Pierre - A França das Estudiantinas - Francofonia de um fenómeno nos séc. XIX e XX. CoSaGaPe, Lisboa, 2019.

----------------------- - Al Descubrimiento de la Tuna Portuguesa (1.ª Parte). Conferência (vídeo no Youtube) promovida pela Asssociação Tunos Decanos de Iberoamerica, Agosto de 2020.

TRUJILLO, José Carlos Belmonte - Evolución organológica y de repertorio en la Estudiantina o Tuna en España desde el fin de la Guerra Civil española. La influencia de 'uda y vuelta' entre España y Latinoamérica - Tese de Doutoramento na Universidade da Extremadura, 2015. 

YCARDO, José Mateo e GONZÁLEZ, Rafael Asencio - História Completa de las Tunas y  Estudiantinas de Cataluña, Siglos XIX y XX . 2020.



quinta-feira, 11 de novembro de 2021

LIVRO: A Tuna Académica da Escola Politécnica de Lisboa

Este novo livro procura retratar a história, actividade e protagonistas da antiga Tuna Académica da Escola Politécnica de Lisboa, fundada em 1901.

Um livro em tamanho A4 com 170 páginas e dezenas de imagens documentais.


"A Tuna Académica da Escola Polytechcnica de Lisboa surge num contexto de forte expansão deste tipo de agrupamentos, sobretudo no âmbito escolar, contribuindo para um fenómeno ainda pouco valorizado: o da importância das tunas na democratização da música e o seu papel de destaque no grande movimento mundial das orquestras de plectro.

O prestígio alcançado, o número invulgar de temas e peças apresentado, bem como a relevância social alcançada colocam esta tuna como uma das mais importantes no que poderíamos chamar de "1.º boom" de tunas académicas; uma história que merecia, portanto, ser mais detalhadamente percorrida e dada à estampa."


DOWNLOAD GRATUITO (PDF):

https://drive.google.com/file/d/1d3-M3rTYgY5fHjcp_wOnR8GlH0g5i3O9/view?usp=sharing



EXEMPLAR EM PAPEL (23€): Compra na Euedito.

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domingo, 22 de agosto de 2021

Tuna no séc. XIII? A mentira tem perna curta!

 Diz um ditado árabe que "Para sustentar uma mentira são necessárias muitas outras" e nada mais adequado neste caso.

Em pleno séc. XXI, e já com tantas obras e artigos de investigação produzidos, nomeadamente, nas últimas 2 décadas, só mesmo alguém muito desatento ou por má fé pode continuar a acreditar e professar que a Tuna é uma tradição com origem na idade média, nos goliardos, trovadores ou sopistas.

Com efeito, nada disso corresponde à verdade e aos factos. 

Não, a Tuna não tem 8 séculos de história (não tem sequer 2, ainda, já que as primeiras estudiantinas de estudantes surgem a partir de ca. 1840-50 e a introdução do termo "Tuna" para as designar é um processo que apenas começa a partir de 1870).

Aliás, nenhum dos que ainda vivem nessa ilusão consegue provar tal, se fizer o esforço de, com seriedade, comprovar documentalmente o que afirma.

Confundir o "correr la tuna" (mendigar) com Tunas é exercício intelectual inaceitável numa classe supostamente letrada, já que o "correr la tuna" nem sequer era um exclusivo dos estudantes, e muito menos estava relacionado com grupos musicais.

 
Confrontando a publicação feita no FB de Tuna España,
com o site da Universidade de Salamanca(entre outros),
fica claro que os factos não correspondem à verdade.

Afirmar a existência de supostos documentos (que nunca ninguém viu nem apresentou publicamente) que provam a suposta existência de uma Tuna de um "Colegio Mayor"[1] de San Bartolomé, no séc. XIII, quando esse colégio só foi fundado no séc. XV (em 1401) é simplesmente ridículo.

Até uma criança sabe mentir melhor.

E quando isso é feito por gente adulta, com curso superior, só podemos dizer que até na mentira são incompetentes, o que se torna uma verdadeira estupidez.

Portanto, confirma-se o ditado que uma mentira nunca gera verdade, mas antes alimenta uma narrativa de "fake news", criada por mitómanos.

E nesse texto, excluindo o facto da notícia da infeliz da perda de um ser humano, tudo o resto ("La Tuna Universitaria de Salamanca es considerada la heredera de aquellos primeiros tunos bartolómicos") merece a mesma credibilidade, ou seja nenhuma.


À esquerda, a publicação no FB da página (oficial?) do Colégio de San Bartolomé 
(cujo conteúdo é replicado posteriormente noutras páginas) e,à direita, uma publicação
do FB do Turismo de Salmanca (que se tornou viral nas redes sociais). 


Uma mentira repetida mil vezes pode levar muita gente a acreditar nela, mas nunca será verdade.

Nestas questões da história e evolução da Tuna, é preciso muito cuidado com o que ouvimos e lemos. Há mentiras cativantes e verdades monótonas, o que costuma confundir a razão.

Por esse motivo é que viver sem ler (ler o que é produzido por quem investiga) é perigoso, pois nos obriga a acreditar apenas no que ouvimos de pessoas sem qualquer credibilidade e sem obra que as credibilize, pessoas que, na hora de provar documentalmente o que afirmam, se remetem ao ensurdecedor silêncio que as compromete.



[1] Esses colégios eram residências que albergavam estudantes universitários.

sábado, 24 de julho de 2021

Tunas portuguesas em crescimento, 1907

 Um anúncio, publicado em várias edições jornalísticas, no ano de 1907, por parte de uma casa de comércio que publicita um novo método de música, à venda por 550 réis (0,5 cêntimos actuais), e no qual se refere, logo a abrir, que o n.º de tunas e grupos musicais que se têm formado é extraordinário.

Tal corresponde às investigações que temos levado a cabo. Com efeito, entre finais do séc. XIX (mais ou menos a partir de 1890) e até, grosso modo, à 1.ª guerra mundial (1914), vive-se o que pode ser designado de 1.º "boom" tunante português.


 Vanguarda, X Ano, N.º 3764, de 11 de Maio de 1907, p. 2.

Vanguarda, X Ano, N.º 3825, de 11 de Julho de 1907, p. 3.


sexta-feira, 23 de julho de 2021

Entre Booms Tunantes

Nos, até agora, 4 programas do "Filhos do Boom", da PTV, a pergunta "Consideras o boom de finais dos anos 1980, inícios dos 90 como o mais importante na história tuneril portuguesa (desde o séc. XIX), nomeadamente em termos estudantis?" foi feita a todos os entrevistados.

Obviamente que, para alguns deles, a resposta é tendencialmente afirmativa, pois é a realidade que melhor conhecem.

Mas será mesmo assim? Foi mesmo o mais importante momento da história da tuna estudantil?

Então vejamos:

O designado "boom" de finais de 1980 e até, grosso modo, 1995, pode rapidamente ser visto em números. Estamos a falar de um pouco menos de 300 tunas fundadas entre 1983 e 1995, sendo criadas cerca de mais 120, até ao ano 2000, segundo "Qvot Tvnas" (2019), com muitas delas e extinguirem-se pelo meio (20 até 1995 e 40, de 1995 a 2000).

Estamos a falar de uma época onde o n.º de habitantes em Portugal anda nos 10 milhões de habitantes e o n.º de escolas e universidades, e respectivos alunos, é incomparavelmente maior que há um século e pico. Uma época onde as mulheres já têm pleno acesso à escola, convém recordar. O rácio tem de entrar nas contas, pois são coisas, até certo ponto, mensuráveis.

 


Ora, o 1.º boom tunante em Portugal é algo que ocorre entre 1890 até, sensivelmente, 1915, numa altura em que a população oscila entre os 5 milhões em 1890 e os 6 milhões em 1911, grande parte dela analfabeta e, portanto, sem acesso à escolaridade sequer (reservada quase só rapazes).

Ora, nessa fase, e mesmo depois, há tunas académicas (estudantis, portanto) em todas as capitais de distrito e em algumas cabeças de concelho, sendo um fenómeno que atravessa níveis de ensino (ao contrário do 2.º boom), havendo tunas desde os colégios (a partir dos 11-12 anos), passando pelos seminários, liceus e centros de instrução, até ao Ensino Superior (presente apenas em Coimbra, Lisboa e Porto).

Nessa época, do virar do séc. XIX para o XX, não havia as actuais facilidades de comunicação. As deslocações eram difíceis, o acesso à informação era apenas pelos jornais (para os poucos que saiam ler), não havia rádio nem TV, nem web a difundir tunas, e muito menos discos à venda a impulsionar o fenómeno (e festivais de tunas como temos hoje, nem por sombras). Tudo que havia eram os saraus, récitas e concertos em sala (com actuações mais sazonais do que com a periodicidade da tuna recente). Mas não é menos verdade que também as tunas faziam digressões no território nacional e além fronteiras, com um impacto enorme.

No espaço de poucos anos, desde 1888 e apesar das limitações comunicativas, o n.º de tunas estudantis dispara exponencialmente.

Se falarmos da Tuna como fenómeno geral (alargado à sociedade civil, então a coisa toma proporções inimagináveis: entre fins do séc. XIX e a década de 1960, quase cada povoação portuguesa tinha a sua tuna, por vezes mais que uma. Nas cidades há-as em grande número).

Portanto, o "boom" dos anos 1980-1995 foi realmente o mais marcante da história tuneril portuguesa?

Se falarmos no âmbito estritamente universitário, claramente que sim. No espaço de menos de 2 décadas (1980-1995-2000) o n.º é impressionante, mas gozou de um contexto favorável (o dobro da população, liberalização do ensino universitário e n.º de instituições, mulher emancipada, escolaridade obrigatória até ao 6.º ano, melhores condições económicas....). Mas, por outro lado, note-se que em outros graus de ensino (colégios/liceus) nem uma mão cheia de tunas surgiram.

E é precisamente olhando ao rácio N.º de estudantes/escolas do 1.º boom Vs esse mesmo n.º do 2.º, que será, no mínimo, questionável pretender que 1980-1995 (ou até 2000) foi mais importante dentro da história da tuna estudantil portuguesa.

Repare-se que, em 1910,  temos pouco mais de 95 mil alunos (distribuídos por todos os graus de ensino), contra cerca de 2,4 milhões em 1996 (segundo ALVES, Luís Alberto Marques - História da educação, uma introdução. FLUP, 2012 e os dados da Pordata). Em termos de proporção e de contexto, pondo em perspectiva os dados, alguma prudência deve assistir a afirmações cabais.

Foi  realmente mais importante o 2.º boom? 

Não estou certo que o tenha sido, mas é de reconhecer que foi, sem dúvida igualmente importante, e especialmente importante para nós que vivemos isso como protagonistas (o que influenciará muitos que também o foram).