domingo, 22 de fevereiro de 2026

João Tamagnini, de tuno a ministro e a presidente do SLB

Recordar, hoje, uma figura ímpar da sociedade portuguesa de inícios do séc. XX, de seu nome João Tamagnini de Sousa Barbosa (Macau, 1883 - Lisboa, 1948).

Pertencente a uma prestigiada família, com vários elementos em destaque na vida militar e política[1], merece especial menção pelo facto de ter sido membro fundador e presidente da Tuna da Escola Politécnica de Lisboa, época em que estudava engenharia na referida instituição.

Com efeito, e segundo já publicado sobre esta tuna[2], exerceu as funções de Presidente da TAEPL nos anos de 1904, 1905 e 1906.


Vale a pena passar os olhos pelos feitos de uma vida recheada de sucessos:

  • Sob os governos de Sidónio Pais e João de Canto e Castro, foi ministro das Colónias (de 1917 a 1918), cargo que deixou a 15 de maio para se tornar ministro do Interior até 8 de outubro e, seguidamente, foi ministro das Finanças até 23 de dezembro;
  • Foi presidente do Ministério (atual primeiro-ministro) da I República, após o assassínio de Sidónio Pais, de 23 de Dezembro de 1918 a 27 de Janeiro de 1919;
  • A 15 de fevereiro de 1919 foi feito Comendador da Ordem Militar de Cristo;
  • Em 1920 foi feito Oficial da Ordem Militar de São Bento de Avis, tendo sido elevado a Comendador da mesma Ordem, a 5 de Outubro de 1926, e a Grande-Oficial, a 20 de junho de 1941;
  • Foi deputado, presidente da Câmara Municipal de Lourenço Marques;
  • Foi engenheiro-chefe em diversas repartições públicas de Moçambique;
  • Foi director do Instituto dos Pupilos do Exército;
  • Foi administrador das Companhias Reunidas de Gás e Electricidade e da Companhia Carris de Ferro de Lisboa;
  • Em 1927, após um período como deputado, foi transferido para a Madeira, vindo a ocupar, mais tarde, o lugar de Comandante Militar da Ilha Terceira;
  • Fez parte da Maçonaria, tendo sido iniciado em 1911 na Loja Pátria e Liberdade, com o nome simbólico de Wagner. Foi igualmente grão-mestre da Maçonaria do rito escocês em 1933;
  • A 19 de julho de 1946 foi feito Comendador Honorário da Excelentíssima Ordem do Império Britânico;
  • Atingiu, militarmente, o posto de Brigadeiro;
  • Foi eleito presidente da Mesa da Assembleia Geral do Sport Lisboa e Benfica para os anos de 1946/1947, no terceiro período de vigência de Manuel da Conceição Afonso;
  • Pela demissão deste, a 30 de julho de 1946, passou para o cargo máximo do clube, o de presidente do SLB (o 18.º), tendo tomado posse no dia 25 de janeiro de 1947. Manteria o cargo até o dia do seu abrupto falecimento no ano seguinte, 1948;

 

Ainda uma referência futebolística ligada ao SLB e outra ao FCP:

Bento Mântua, pertencente ao Grupo Dramático da Tuna da Escola Politécnica, e que era irmão do seu regente, Alfredo Mântua[3], já tinha, ele também, sido presidente do SLB (o 12.º), para além de cargos ministeriais e obra como escritor e jornalista.

Paulo Pombo, membro ilustre do Orfeão Universitário do Porto e co-autor do famoso tango “Amores de Estudante (autêntico hino académico portuense), foi o 27.º presidente do Futebol Clube do Porto[4].

Outros: personalidades da vida social, cultural, política e desportiva, ligadas a tunas, há-as em vários locais, como é o caso (mais recente) de Joaquim José Pinto Moreira, que foi autarca e igualmente presidente do Sporting Clube de Espinho, mas já antes fora músico e dirigente na Tuna de Anta (Tuna Musical de Anta).

Mas fica para outras calendas e/ou outros emissores a exploração e aprofundamento do assunto.

 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

O Além Tunas visto pela IA

 Dizem estas 2 fontes IA o seguinte (com pequenas imprecisões) sobre o blogue:



segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Estudiantina Nestlé no México



Estamos perante mais uma tuna/estudantina formada no universo operário fabril, numa longa tradição iniciada na Europa no virar o do séc. XIX para o XX.

Uma achado curioso desta Estudantina formada na fábrica[1] da Nestlé, em Toluca (México), nos anos 60-70, e liderada por Bruno Jiménez (um conhecido diretor de estudantinas durante esse período).

Um vinil de vinil de 45 RPM (7 polegadas), formato extremamente popular nessa época e que constitui mais um testemunho da transversalidade do fenómeno por todas as classes e ofícios.



[1] O termo usado, e constante na capa do disco, é “Planta Toluca” (do inglês plant) referindo-se a uma instalação industrial ou fábrica localizada em Toluca.

 




domingo, 14 de dezembro de 2025

O Ano Tuneril de 2025

O ano tuneril de 2025, que agora finda, foi, como sempre um pouco de “mais do mesmo”. Um calendário preenchido com festivais (destacando-se Março e Novembro como meses mais fortes em termos numéricos) e polvilhado, amiúde, de algumas novidades, bem como de desaparecimentos precoces.

O grande evento do ano foi, sem sombra de dúvida, o regresso do ENT – Encontro Nacional de Tunos, realizado em Outubro passado, em Tomar, com um programa rico, pertinente e tratado por quem, de facto, percebe dos temas e prima pelo rigor histórico e científico[1]. Passados 12 anos sobre a última edição realizada em Vila Real, espera-se que outras tunas peguem no testemunho e possam dar continuidade ao ENT.

Outra iniciativa relevante chegou-nos, mais uma vez, pela PortugalTunas TV, com o “É o que temos”, um podcast de 7 episódios a analisar, informalmente, a Tuna, nestes anos pós-pandemia. E por falar em podcast, sublinhar o surgimento do “PodcasTuna”, primeiro podcast inteiramente gerado por IA (embora com supervisão científica) dedicados a tunas, e cujos 11 episódios passam em revista a história da Tuna (das origens à sua diáspora pelo mundo), sendo que os últimos 3 são dedicados ao MFT, ENT e PortugalTunas, respectivamente.

Mas há também a registar a partida precoce de vários tunos: João Rocha (TAIPCA), João “Gertrudes” Fragoeiro (da ForTuna), Micael Costa (da Tun’Unkacerta), Lara Gonçalves (da Sal&Tuna) e António “Pastilhas” Batista. (FAN-Farra de Coimbra).  Fica aqui a nota de pesar por todos eles.

O ano de 2025 ficou ainda marcado pelo lançamento de quatro trabalhos discográficos (devidamente repertoriados pelo MFT – Museu Fonográfico Tuneril), o “Gerações”, da Phartuna - Tuna de Farmácia de Coimbra, o “Príncipe do seu tempo”, da Tuna Académica da UTAD, o "Muralhas", da Tun?obebes - Tuna Feminina de Engenharia da UP e o "Histórias", da Tuna de Santa Maria.  
É de louvar o esforço e aposta em produzir trabalhos físicos, em detrimento da aposta exclusiva em plataformas online onde tudo é efémero e se irá, irremediavelmente, perder a médio prazo (e que nem devidamente catalogado pode ser).

Outro destaque é o da efeméride de 2 centenários: o da Tuna de Perosinho e o da Tuna Musical ''A Vencedora'' de Vilar de Andorinho, ambas de Vila Nova de Gaia.

Finalmente, recordar que a emissão “Praça de Alegria” perfez 30 anos (demos disso nota em artigo). Uma das mais icónicas e duradouras emissões televisas em Portugal e das mais significativas e queridas da comunidade tuneril.


O desejo que fica é que 2026 possa ser mais e melhor para a Tuna e os Tunos portugueses.

P.S. - Já depois do fecho e publicação deste artigo, soube-se do falecimento do Pedro Luís "Tamboril" (Versus Tuna), ficando a nota de pesar e tendo a imagem deste artigo sido atualizada em conformidade.

[1] Ao contrário do que andam a fazer alguns mais a norte.


domingo, 19 de outubro de 2025

Associação Tuna Musical de Rebordões - 99 anos

 Merece destaque a  Associação Tuna Musical de Rebordões já que está a 1 ano de completar o seu centenário. Mais uma vez tuna a integrar o lote de mais antigas agremiações mundiais com actividade ininterrupta, comprovando que a Tuna não é um exclusivo de estudantes, como nunca foi!







Fake News sobre Tuna (mais do mesmo)

 Bem sabemos que a ignorância não dói e que dizer palermices sobre tunas custa pouco - em linha com a preguiça mental que costuma caracterizar o conhecimento sobre o tema.



Esta é mais uma publicação, desta feita no Instagram, a inventar que a 1.ª tuna data de 1876, que a 1.ª tuna em Portugal foi a da Universidade de Coimbra, que a Tuna resulta "da energia e poesia dos jovens estudantes do séc. XIX" ou que até aos anos 80 só existia a Tuna da UC e a do Porto. NADA MAIS FALSO! NÃO ACERTAM UMA QUE SEJA!

Quando é que as pessoas começam a deixar o "achismo" e passam a ser mais criteriosas e exigentes com aquilo que escrevem publicamente?

domingo, 28 de setembro de 2025

A Tuna - algo mais que música?

Assunto mencionado durante o último ENT realizado em Tomar, e por vezes aflorado em outros espaços, tem sido palco fértil para equívocos. A Tuna é algo mais que música, nomeadamente a Tuna Académica? Se tivermos de circunscrever os traços identitários transversais, que são comuns a todas as tunas (civis ou académicas), desde que foram criadas até à data…. o que sobra que seja igual tanto em Chaves como em Loulé, agora como há 90 anos e constitua corpus estável e próprio que permita, por exemplo, uma candidatura a património cultural  imaterial português?


Afinal, Tuna, na sua definição, no seu conceito, é algo mais que música?

Creio bem que a pergunta possa ser ardilosa! Se perguntarmos à generalidade da comunidade, a resposta, mais rápida que o Lucky Lucke a disparar, será  um convicto e intransigente "sim!".
Uns quantos, contudo, colocarão reservas, pois cedo se terão apercebido que isso de "o que define uma Tuna" não pode ser nem a "olho", nem com "achismos" e muito menos do "Maria vai com as outras"!

O problema é que, a partir do franquismo em Espanha, e do 2.º boom de tunas académicas (década de 1980-90) em Portugal, a Tuna foi sendo vestida com roupagens que lhe eram alheias: umas discretas e que traziam valor, mas muitas outras que a descaracterizaram e deturparam. Quem chegou mais tarde tomou essas roupagens como sendo património secular, como sacramentos dogmáticos a professar e perpetuar.

O primeiro foi querer revestir a Tuna de secular tradição[1], colando-lhe práticas artificialmente recriadas e pintando-lhe um pedigree medieval brasonado. Em Espanha, recriaram-se práticas a lembrar os pedintes (os sopistas – estudantes pobres; os tunos do siglo de oro – meliantes tantos civis como estudantis que pouco ou nada tinham a ver com música) e (abreviando e omitindo outras, para não alongar) surgiram, a partir dos anos 50, as novatadas (importadas das praxes universitárias), entre outras.

Por cá, a Tuna Académica foi inicialmente transformada numa testa de ferro das praxes e “tradições académicas” (muitas delas criadas artificial e porcamente com base em códigos pejados de parvoíces sem nexo). Um dos primeiros lapsos lesa-pátria prende-se, precisamente, com os denominados “trajes de caloiro”; coisa sem nexo e baseado num grave erro histórico promovido pelos "duches" e corja de ignorantes (vulgo organismos de praxe) de que, supostamente, os caloiros não podiam trajar. Contaminando naturalmente as tunas (numa altura em que os actores se confundiam, por serem, normalmente, comuns às duas realidades), surge essa ideia “peregrina” (“estúpida”, bem vistas as coisas) de que, na Tuna, o novo elemento devia ser tratado seguindo o mesmo protocolo, as mesmas designações, as mesmas regras, que as aplicadas aos novos alunos na universidade.

A noção de "caloiro", especialmente de "Caloiro na tuna" também ela anda inquinada e a adopção do termo nas tunas não foi, de todo, feliz. 

Ora, sabemos bem que é anti-Praxe impedir um caloiro de trajar, e que o pode fazer mal se matricule (tal como é descabido dizer-lhe que só deve trajar e traçar a capa na noite da sua 1.ª serenata – pois só um burro diz tamanha patranha), contudo é o que tem sido prática comum (mais ainda nas instituições que inventaram trajes[2]) e levou a vermos, em palco, tunos vestidos, quase sempre, de forma ridícula, por vezes literalmente vergonhosa (com o tempo, os pijamas saíram de moda, mas mantiveram-se outras vestimentas sem nexo algum).

Ora, qual era a tradição Tuneril que existia há já mais de 1 século, quando tivemos o nosso “boom” da década 1980-90? 

- A tradição era que não havia a designação de caloiro e que quem ia a palco vestia igual. Questão de aprumo, respeito pelo público e postura coerente de quem ali está para “mostrar” música e não n.º de matrículas ou subservientes hierarquia internas.

Aliás, recordemos: só ia a palco quem já soubesse tocar, não se colocando publicamente a questão de se tinha muitos ou poucos anos dentro do grupo. Sempre foi, portanto, a música, a competência musical que ditavam quem ia ou não a palco tocar.


Outra roupagem com que contaminámos a Tuna foi a das praxes, do gozo ao caloiro (para sermos mais precisos), quer por cópia do que já tinham começado a fazer algumas tunas espanholas alguns anos antes, quer por contágio das praxes universitárias ressurgidas e reinventadas no mesmo contexto, e quase sempre pelos mesmos protagonistas, do “boom Tuneril”.

Como a ignorância é atrevida (já o dizia Jean de La Bruyére, em 1688) e a preguiça de ir pesquisar mais simpática, assistiu-se a um tempo fértil de invenções disparatadas. “Não sabendo, inventa-se” (complicando, de preferência), foi o lema que norteou esses anos (e os seguintes).

Surgiram novas hierarquias e nomes estapafúrdios para as mesmas, com o fenómeno a passar para as tunas que, por sua vezes, também procuraram identificar-se com jogos de palavras que rivalizavam em engenho (casos raros) e insensatez total (onde assomavam designações como “Prostituna”, “Javadérmica”, entre outras[3]). A nomenclatura surgida para substituir presidente, secretário, tesoureiro… é a prova provada de algo que não trouxe mais-valia alguma, nem mais graça sequer[4].

A contaminação da “Praxe”, acabou por resultar em tunas a criar  praxes internas, muitas delas humilhantes ou mesmo perigosas (e cuja utilidade é nenhuma)[5], com trajes diferentes para caloiros (ao contrário de Espanha, por exemplo[6]) e com vários graus de “caloiro” (pré, proto…) -  como se isso tivesse algum sentido[7]; em tunas que ainda se colocam em subserviência a organismos de praxe e à ideia errónea de que o traje académico é um traje de Tuna (e, por outro lado, que não o sendo, isso implica estar subordinado, enquanto se está no âmbito tunante, a organismos de praxe - porque o traje "é da praxe"). Tunas configuradas em autênticas trupes musicais ainda existem, infelizmente, comprovando que, nesses casos, os implicados nem percebem de Praxe nem entendem de Tunas.

Mas a "praxe" não é (também) uma tradição tunante? 

- Não, não é!

Quando a “Praxe” ressurgiu e se deu o “boom” (recordando, contudo, que sempre existiram, de forma ininterrupta, tunas académicas), a Tuna portuguesa existia há mais de 1 século sem nunca ter precisado de praxes e da Praxe, sem nunca ter havido essa práticas (fossem universitárias ou não), sem ter caloiros, sem ter trajes diferentes ….cingindo-se apenas ao essencial e despida de pretensiosismos e folclore bacôco. Não há uma só tuna estudantil anterior ao "boom" onde se verificassem esses praxismos.

Muito daquilo que comumente chamamos de “Tradição” nas tunas académicas, em boa verdade, não o é nem tem nada a ver com o cerne e identidade da Tuna.

Ponto de situação: tradição tunante é o quê, afinal?
Se é cada um a sua, cada tuna as suas tradições, estamos a falar de algo que não identifica a Tuna como tal, mas a distingue na sua prática interna e nas convenções que regem a sua forma de socializar.
Uma Tuna só comer hambúrgueres e levar uma placa do McDonald’s para palco não é sinal identitário de Tuna, nem uma tradição Tuneril. É uma tradição daquele grupo, naquela época precisa - a qual pode mudar no seio desse grupo na geração seguinte.

Portanto, quando falamos de tradição, no contexto tunante, temos necessariamente de falar daquilo que é identidade e necessariamente imutável – ou pelo menos não é passível de mudar repentinamente e de forma artificial. Uma pretensa candidatura a património imaterial apenas olharia aos aspectos comuns ao conjunto, padronizadas e partilhadas como costume regrado (mesmo que não imposto).

Mas se queremos defender uma tradição Tuneril, começaria por sugerir que os tunos não fossem cúmplices de adulterações ou consentissem grupos que, não reunindo os fundamentos mais basilares para serem uma Tuna, assim se apresentem exigindo integração e querendo impor a sua visão enviesada e acéfala de Tuna (tendo e conta que já temos um coro a dizer-se tuna[8]).

A Tuna é algo mais que música?

De certa forma, é, pois fora o âmbito estritamente musical (ensaios e actuações), trata-se de um grupo de pessoas que criam afinidades. Daí que surjam práticas, hábitos, pequenas “tradições” (jantares anuais, idas a determinado lugar, pequenas brincadeiras, alcunhas, pequenos ritos nas refeições…), mas tudo isso são aspectos circunstanciais, periféricos, que dão uma identidade interna de grupo, que são adornos que tornam a participação dos seus elementos mais emocionante, significativa, proveitosa …..

Encher a boca com “tradição” para nos referirmos a esse tipo de aspectos circulares é pernicioso. São aconchego, fornecem contextos, revestem, mas em momento algum definem o grupo como sendo, ou não, Tuna! Se não definem, nem igualmente são transversais/padronizados, como podem ser tradição Tuneril?

Então, mas…e Tuna Académica, como se diferencia das outras?

Diferencia-se como sempre sucedeu, a par de tunas de vidreiros, de oficiais de barbeiro, de caixeiros, de funcionários…. ou seja em função de quem fazia parte, e, na adopção de uma roupa apropriada (as que tinham meios para isso) e designação adoptada (no caso estudantil: traje académico e designação do grupo: “académica”, “Escolar”, “Universitária”…). Não precisavam de praxes internas, de nomenclaturas diferentes, de graus, de ritos….

Todas elas se diferenciavam sem precisarem de adornos desnecessários, porque estavam ali para tocar (e cantar) e queriam distinguir-se, e ganhar nome, pela qualidade musical e artística …. que é só aquilo que, no final, importa ao público e a qualquer pessoa sensata.


Concluindo

Aquele chavão, caricaturado, que afirma que quem não sabe cantar procura compensar nas roupas e postura (os sketeches, as piadas, etc.)  serve perfeitamente àquelas tunas que, não tomando consciência de que são (deviam ser) um grupo musical que deve exercer esse mester com mínimos de qualidade, “compensam” (acham que sim) com aquilo que é circunstancial[9].

E aqui abro uma parêntesis curto, mas grosso: bandeiras, cambalhotas e artes circenses, são complementos artísticos, mas não são música. E as pandeiretas entram também nessa categoria, embora tenham uma responsabilidade acrescida: como instrumento musical, não podem nunca deixar de cumprir a sua função primordial: marcar correctamente (e sublinho) o ritmo. Recordar que uma tuna pode dispensar pandeiretas, bandeiras e quejandos e continuará a ser tuna, mas  o contrário é impossível.

 

Para se saber o que constitui o corpus da tradição Tuneril, convém, desde logo, conhecer a Tuna[10], a sua história, a sua evolução ao longo dos anos, as suas características transversais no tempo,  para saber em que consiste, de facto, uma Tuna e que tradição/ões lhe(s) é/são própria(s).

 



[1] Algo que já se pôde observar em idos de 1878, quando a Estudiantina Fígaro inventou um traje que supostamente era o traje estudantil (abolido em 1834), quando, na verdade, era um mosaico de peças de várias épocas e algumas sem relação com trajes académicos de antanho.

[2] Uma visita ao blogue Notas&Melodias permite perceber que, salvo o traje nacional e o traje da Escola Agrária de Coimbra, nenhum outro tem validade histórica ou razão de ser (sendo normalmente baseados e falsas premissas).

[3] Em tempo escreveu-se um artigo sobre o assunto, publicado já não sei  bem onde.

[4] Contra mim falo, no respeitante à minha Tuna. O pessoal via filmes a mais!

[5] Caloiros de tuna de quatro, caloiros largados do autocarro a dezenas de quilómetros do destino…

[6] Os novatos usam o traje de tuno, mas sem Beca.

[7] Numa tuna há quem esteja a aprender e, por isso, não deve subir a palco. Não faz ainda parte da Tuna. Não tem de ter hierarquia, pois não é suposto acompanhar o grupo. Os que estão aptos a tocar, poderão ser novatos no grupo, mas são Tunos. As Tunas são os únicos grupos de cariz musical ou cultural com tais “burocracias”.

[8] Há uns anos, os Napoleões eram ignorados e, no limite, internados. Hoje há quem esteja capaz de acreditar que eles o são e os aplaudam!

[9] Seja o prémio de “Tuna Mais Tuna”, o de “Tuna Mais bebedora” (uma parvoíce absoluta) seja noutros pretextos que procuram valorizar tudo em detrimento da prestação estritamente musical.

[10] Como conceito geral e igualmente a sua própria (história).


quinta-feira, 18 de setembro de 2025

A Tuna e os 30 Anos da Praça da Alegria

Dia 18 de Setembro marca o arranque, nos Estúdios da RTP Porto, de uma das mais icónicas e duradouras emissões televisas em Portugal, a Praça da Alegria (emitida no horário nobre da manhã)

Uma emissão que muito diz à comunidade tuneril portuguesa que, há que o dizer, tanto deve à Praça da Alegria a projecção do fenómeno e a possibilidade das nossas tunas se darem a conhecer na televisão (a maioria fazendo, aí, a sua primeira - e por vezes única - aparição).

História do Porgrama

O programa começou, portanto, em 1995, sob batuta de  Manuel Luís Goucha e Anabela Mota Ribeiro (esta última rapidamente substituída, no ano seguinte, por Sónia Araújo). Mais tarde, em 2002, Jorge Gabriel substitui Luís Goucha para, em 2013, o programa ser transferido para Lisboa, com João Baião e Tânia Ribas de Oliveira à frente do programa (esta última a ficar sozinha na apresentação, a partir do ano seguinte). Um ano depois, em 2014, o programa é  substituído pelo "Agora Nós".

Após quase 1 ano de interregno, reaparece a Praça da Alegria, novamente no Porto, com apresentação de Jorge Gabriel e Sónia Araújo (de regresso), o qual perdura até aos dias de hoje.

Importância para o mundo tuneril

A Praça da Alegria e Manuel Luís Goucha são um marco na história tunante portuguesa. Nos seus primeiros anos, poucos terão sido os dias sem que uma tuna se apresentasse no programa; e essa publicidade, essa difusão que a Praça da Alegria permitiu, foi decisiva no processo de consolidação do chamado "2.º boom de tunas", traduzido no programa Effe-Erre-Yá" (1995) [1], com apresentação do próprio Manuel Luís Goucha[2].

Na Praça, as tunas não apenas tocavam, mas muitas vezes eram entrevistadas, permitindo entreabrir um pouco mais esse mundo "novo" que o programa dava a conhecer ao grande público. O funcionamento, as particularidades, a história e cada grupo iam, assim, constituindo pinceladas com que também se pintava a imagem tunantesca (a contrastar com a outra, menos abonatória, de excessos que quase sempre se constituía reverso da medalha).



Balanço


E passaram 30 anos sobre a 1.ª emissão. “O tempo passa”, dizemos nós com alguma nostalgia, pois devem ser poucas as tunas que não tenham, a determinada altura, pisado o palco de tão memorável programa televisivo. Parabéns, Praça da Alegria!

“Nunca tantos deveram a tão poucos”[3] é uma frase famosa que poderia perfeitamente aplicar-se neste caso.

É verdade que, na actualidade (e desde há uns anos a esta parte), as tunas quase desapareceram do programa, mas não é menos verdade que a comunidade tuneril portuguesa tem uma dívida de gratidão; uma gratidão que não pode ser menorizada e que cabe aos mais velhos testemunhar junto das gerações mais novas, porque parte do legado que nos cabe promover e preservar.



[1] TAVARES, Ricardo - A Aventura do "Effe-Erre-Yá”, artigo [Em linha] de 25-01-2008 e A Aventura do 60 Anos, artigo [Em linha] de 2310-2019. Blogue As Minhas Aventuras na Tunolândia.

[2] COELHO, Eduardo, SILVA, Jean-Pierre, TAVARES, Ricardo, SOUSA, João Paulo - QVID TUNAE? A Tuna Estudantil em Portugal. CoSaGaPe, 2011-12, p. 279.

[3] Frase que foi parte do discurso que Winston Churchill proferiu na Câmara dos Comuns, a 20 de Agosto de 1940, evocando a bravura dos pilotos da RAF durante a Batalha de Inglaterra.

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

IA (Inteligência Artificial) e a Tuna (Parte 3)

 Mais um serviço de IA, de seu nome "Talkpal", desta feita dedicado a apoiar a aprendizagem de línguas, mas que se "mete" por outros caminhos com os resultados que se sabe.


Não basta que 80% da info possa ser aceite (nem que fosse 99%), se apresenta algo errado e profundamente falso, como é o caso.


Mais uma vez essa coisa falsa de que Tunas são exclusivamente grupos universitários, de que têm origens no séc. XIII (com ligação a sopistas e quejandos) , para lá de inventar ritos nas tunas que nunca o foram ou pretender colocar rótulo de tradição à prática de serenatas a donzelas "ajaneladas".

É triste, mas há que agradecer parte de isso a quem publica pseudo-trabalhos de jornadas de tunas em sites de instituições de ensino superior sem qualquer critério de rigor; trabalho sesses depois disponíveis para os motores de busca da IA (suficientemente artificial para não saber distinguir lixo de informação credível).




terça-feira, 2 de setembro de 2025

X ENT em Tomar, 27 Setembro 2025

 HABEMUS ENT!

Sob o tema geral " O ACESSO, SELECÇÃO E RIGOR DA INFORMAÇÃO SOBRE A TUNA ", regressa o Encontro Nacional de Tunos, desta feita em Tomar, co-organizado pela Tuna Templária e o PortugalTunas, no próximo dia 27 de Setembro!

Mas a realização de este ENT, passados 12 anos desde que se realizou a última edição (em Vila Real, no ano de 2013), leva-nos a perguntarmo-nos sobre o "estado da nação tunante", dado que foi preciso serem outra vez os mesmos a mexerem-se para que algo se fizesse. Aos que, uma vez mais, disseram "presente!", nada mais a dizer do que "Parabéns" e "Obrigado!". Ao ENT, um "Welcome back!". Aos que irão participar pela primeira vez, espera-se que cheguem ao final do dia com a sensação de que valeu a pena (o programa leva a crer que sim).
                          CLIQUE NA IMAGEM PARA ACEDER A MAIS INFOS



domingo, 31 de agosto de 2025

IA (Inteligência Artificial) e a Tuna (Parte 2)

 Já em Maio se tinha abordado a questão da IA no fornecimento de informações credíveis sobre a Tuna, nomeadamente quando lhe era pedido uma lista de livros, em português (e respectivos autores) sobre Tunas/Estudantinas (ver AQUI).
Na altura deparámo-nos com o fornecer de livros e autores que nem sequer existiam.

Tal repetiu-se em outros fornecedores de IA, também eles a apresentarem listagens de livros e autores inexistentes (na altura não guardei print-screen dessas listas, infelizmente).

Lista de obras inexistentes sobre Tunas, fornecidas pelo Chatgpt, em Maio de 2025.


Claro que a IA também fornece obras e autores existentes (o que sucedeu depois de árduo trabalho em fornecer dados correctos e corrigir repetidamente as infos que as diversas IA iam apresentando), mas ainda longe do ideal e só depois de muito insistir a coisa lá vai apresentando obras que omitiu diversas vezes (sempre a desculpar-se da sua incompetência)... conquanto estejamos identificados (pois)!

Lista fornecida pela IA "Copilot" há uns meses. Uma vez mais, nem os livros nem os autores existem.

PORTANTO CUIDADO! HÁ UM PORMAIOR:

Uma coisa é fazer a pesquisa de forma anónima e outra é com sessão iniciada (no google, por exemplo). É que a IA regista as preferências e anteriores pesquisas e actividade de cada utilizador identificado, pelo que, se pedirmos um lista de livros sobre tunas, estando nós identificados, já raramente  nos apresenta coisas inexistentes ou obras da treta. Isto porque "aprendeu", registou as nossas preferências e "exigências. E isso faz toda a diferença e ilustra o perigo e deficiência da IA no que concerne a Tunas.

Ora o que fizemos, há pouco, foi voltar a pedir, DE FORMA ANÓNIMA, uma lista de obras, em português, sobre Tunas/Estudantinas e eis o bonito resultado: um relambório de obras e autores inexistentes, ou seja uma cagada em 3 actos, como se diz.

Mais uma lista de obras e autores inexistentes, fornecidos pela IA "Gemini",
quando se lhe solicitou uma listagem (em português) sobre Tunas/Estudantinas.

E é esse o perigo de quem, não tendo grande conhecimento livresco e académico sobre Tunas, e pretende fazer um trabalho sobre as mesmas (procurando fontes com ajuda da IA), é enganado e ludibriado, quando devia poder confiar na ferramenta que usa. Já tínhamos, em Outubro do ano passado, abordado a questão da IA e das falsas infos fornecidas sobre a Tuna (ver AQUI) e pouco ou nada melhorou na navegação "anónima".

Ora, se a IA fornece obras e autores inexistentes, com que grau de fiabilidade podem estudantes, que querem elaborar trabalhos nesta área, confiar na IA e nas infos que fornece sobre Tunas? 

Grave é quando, pseudo-trabalhos académicos, colocam, como bibliografia,
obras e autores inexistentes, como sucedeu nas V Jornadas Internacionais de Tunas,
organizadas no IPB, pela Rausstuna, como disso AQUI demos conta.

Cuidado, portanto, quando usarem a IA sobre assuntos destes (ou outros), sem contrastarem, sem procurarem outras fontes de informação e confirmarem criticamente a "papinha feita" que vos cai no colo sem esforço (e que só exigiu uns meros cliques e copy-paste).


A IA tem esse mau vício de produzir nomes de pessoas que nunca existiram,
atribuindo-lhes méritos e obra igualmente inexistentes.




terça-feira, 5 de agosto de 2025

100 anos da Tuna Musical ''A Vencedora'' de Vilar de Andorinho

 Grande efeméride para mais uma tuna centenária, mais um grupo a comprovar que Tuna não é exclusivo estudantil e que Portugal possui os mais antigos exemplares com actividade ininterrupta no mundo, sejam a nível popular ou escolar.
Parabéns à una Musical ''A Vencedora'' de Vilar de Andorinho (V.N. de Gaia - Porto) pelos seus 100 anos de existência!






quarta-feira, 9 de julho de 2025

Instrumentos de Tuna, a definição de Tuna.

Mais uma vez a conversa dos instrumentos de Tuna[1] e do que é uma Tuna.

Parecia que, depois de muitos anos de  labuta a esclarecer, a fornecer informação pelos mais diversos meios (no PortugalTunas, pela PTV, em blogues, através de livros gratuitamente partilhados online, via redes sociais...), se tinha chegado a um consenso basilar e transversal sobre o que era uma Tuna e o que a definia como tal ou seja o seu leque instrumental. Um consenso que não foi imposto, mas que foi aceite em razão da mera observação de factos documentados ao longo de mais de um século de prática (em Portugal e no mundo).

Uma definição que ficou catalogada (ver AQUI) e amplamente reconhecida.

Mas parece que tem vindo a crescer, em gerações mais recentes, um desinteresse por conhecer e, em virtude disso, um regresso ao ignorar da res tvnae e ao desvirtuar daquilo que é cerne identitário.

Não nos vamos referir ao abjecto caso de quem acha que um grupo que só canta é uma Tuna, pois de nada vale tentar trazer à razão quem é militantemente estúpido[2].

O que está em causa são os que, algumas vezes sem má intenção e por desconhecimento, acham lícito e adequado contaminar o leque instrumental da Tuna com aquilo que lhe é alheio e  descaracteriza.



Tal como já se fazia referência em obras literárias e artigos, dizer que não é o uso pontual de um instrumento (um trompete ou quejandos) num tema onde é essencial (porque assim o é na versão original, por exemplo) com o seu uso constante[3].

E não, não é questão de “evolução”, sobretudo quando colide com uma pedra basilar que define a Tuna: tradição.

Publicado no contexto do blogue Notas&Melodias, relativo à Tradição Académica/Praxe,
este texto, do Eduardo Coelho, adequa-se perfeitamente à Tuna.

Mas não é apenas ver em palco instrumentos alheios à Tuna (o que por si só não apenas desvirtua mas também, de certo modo, discrimina) usado abusivamente e sem restrição alguma, mas começar a ver cartazes (que publicitam actividades, por exemplo) onde desaparecem os instrumentos próprios e identificativos de Tuna para se colocar tunos a tocar saxofone, trombone, bombardino ou quejandos. O grave é que se perverte a imagem identitária da Tuna e se passa, para o público menos conhecedor, uma ideia errada.

Já não bastando o cliché de que tunas são apenas grupos universitários (varrendo, dolosamente, as tunas dos demais graus de ensino e as tunas populares), surge agora esta situação gráfica que só vem contribuir para confundir e difundir “fake news”. E recordemos a época em que iconograficamente (para não falar de temas musicais e estúpidos prémios festivaleiros de "Tuna mais Bebedora") se desenhavam tunos ébrios, associados à bebedeira e aos copos (imagens, autocolantes, cartazes), reforçando o cliché generalizado dos tunos e das tunas como uma cambada de alcoólicos inveterados e sem civismo.

Esta despreocupação, este “qual é o mal?” é apenas indício de uma geração que chegou mais recentemente à Tuna sem qualquer background e, pior, sem qualquer hábito ou preocupação em saber, em se inteirar, tentar compreender o fenómeno. Mesmo se damos de barato que, durante alguns anos, a comunidade viveu “apavorada” com o que se previa ser a redução drástica no recrutamento e desinteresse pela Tuna, levando, porventura, a apertar menos nos critérios de selecção/formação, há também que reconhecer que é uma marca dos tempos. De facto, esta nova geração vive de redes sociais e de consumos rápidos, efusivos e efémeros, que não exigem tempo, esforço, dois dedos de testa e, em suma,  preocupação (compromisso, legado, rigor…) com quem vem a seguir e aquilo que é deixado.

Tínhamos saído de um tempo de “a minha noção de tuna” resultante dos mitos que subsistiam e da falta de informação documentalmente credível (mas numa geração que, geralmente, não virava a cara a provas e factos), para “a minha noção de tuna” que resulta do desinteresse, do não querer saber (numa geração que, geralmente, não tem qualquer contacto com conhecimento académico/livresco sobre a tradição que vivencia e é muito pouco exigente com a pouca informação que encontra/procura[4]), enveredando pelo "acho que" e conferindo-se a si mesmo propriedade para se pronunciar e transformando a ignorância em "sapiente virtude".

Quando não se sabe o que é uma Tuna (mas se acha saber só porque se faz parte de uma), quando se tem a presunção de considerar “a minha noção/conceito/ideia de tuna é” como válido[5]… abre-se a porta ao regresso do obscurantismo tuneril, à diabolização do conhecimento e de quem o transmite, ao descrédito perante o público e a própria comunidade. 

 



[1] Vd O Alfabeto das Tunas, artigo de 03-12-2016.

[2] Vd Ricardo Tavares -  A Aventura Instrumentalmente Natural. Blogue As Minhas Aventuras na Tunolândia, artigo de 08-04-2025.

[3] Que parte normalmente do desejo que fulano ou sicrano que toca X ou Y instrumento alheio integre a Tuna (ou porque é um tipo porreiro ou porque há falta de instrumentos e não se quer esperar que alguém aprenda os que fazem falta).

[4] Tanto mais grave quando se traduz em apresentações/artigos medíocres e pejados de erros científicos, em “jornadas” sobre Tunas ou em outras intervenções publicadas online.

[5] Vale a pena (re)ler Ricardo Tavares, no blogue  As Minhas Aventuras na Tunolândia -  A Aventura do "Eu-É-Que-Sou-O-Plesidente-Da-Junta!", artigo de 25-05-2017 e A Aventura Dunning-Kruger, artigo de 24-03-2021, entre outros.

 

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