segunda-feira, 10 de maio de 2021

Estudiantina Fígaro em São Petersburgo (Rússia), 1884-1885

 Mais uma imagem inédita, em estreia mundial, da Estudiantina Española Fígaro.

Como imagem foi publicada em 05 de Janeiro de 1885, existe a forte probabilidade de ser referente a uma actuação da Fígaro em finais (Dezembro?) de 1884.

Tratar-se-á de um desdobramento, já que sabemos que a Estudiantina Fígaro está igualmente, nesta altura, em digressão pela América do Sul[1].

Всемирная иллюстрация (Ilustração Mundial),
 N.º 833, Tomo 33, de 05 de Janeiro de 1885,  p. 32. 

 

 



[1] Ramón Andreu Ricart - Estudiantinas Chilenas. Origen, desarrollo y vigencia (1884-1995). Fondo de Desarrollo de la Cultura y las Artes. Ministerio de Educacion. Chile, 1995; Félix O. Martín Sárraga - Análisis comparado de los integrantes de la Estudiantina Española Fígaro (1880-1889). TVNAE MVNDI. 29-07-2015.

Estudiantina Fígaro em São Petersburgo (Rússia), Abril de 1879

 

Apresentamos uma nova imagem inédita que retrata, ao que tudo indica, a Estudiantina Fígaro, na sua passagem pela Rússia.Os dados de que dispomos, apontam para a Fígaro em Moscovo[1], contudo a legenda da imagem que o periódico apresenta, coloca o grupo em São Petersburgo.

 

Всемирная иллюстрация (Ilustração Mundial),
N.º 536, Tomo XXI , 14 de Abril de 1879  p.317.


A legenda diz o seguinte "São Petersburgo - Estudantes artistas / Artistas espanhóis (Estudiantinas) no Circo Ciniselli".

Nota: a grafia usada na imagem não facilitou o uso das ferramentas de tradução (correspondência de caracteres em cirílico).

Ora o Circo Ciniselli  é um edifício que se encontra em Moscovo[2].


O Circo Ciniselli, em Moscovo, edificado em 1877.

Muito provavelmente, o periódico mencionou a presença da Estudiantina Fígaro em São Petersburgo, mas utilizando um desenho do grupo actuando em Moscovo.

Estranhamente, a imagem apresenta o conhecido grupo sem o característico bicórneo, algo que nos colocou dúvida sobre a identidade, contudo não há qualquer dado de ter havido uma outra estudiantina naquele país ou cidade que não fosse a Fígaro.



[1] Félix O. Martín Sárraga - La Fígaro, estudiantina más viajera del siglo XIX. Tvnae Mvndi, Artigo actualizado de 21-11-2018.

[2] O Circo Ciniselli (Цирк Чинизелли ), actualmente o Circo Bolshói de São Petersburgo, é um edifício projectado por Vasily Kenel (1834 a 1893) que foi inaugurado a 26 de dezembro de 1877, sendo a primeira estrutura do género construída em pedra e tijolo na Rússia. O edifício, que deve o seu nome ao artista de circo italiano Gaetano Ciniselli (1815-1881) - que dirigiu a empresa até 1919, possuía um palco com 13 metros de diâmetro e estábulos para 150 cavalos. Foi o local onde o primeiro Museu de Arte Circense foi aberto, em 1928.

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Estudiantina Fígaro na Áustria (imagem), 1883

 Resultante das pesquisas feitas, encontrámos esta imagem curiosa de uma "Estudiantina Española" a actuar em Viena (Áustria).

Ao que tudo indica, poderá muito bem tratar-se da Estudiantina Española Fígaro, já que havia indícios preliminares que colocavam tal possibilidade[1].

Fica o documento, em estreia mundial.

 

Kikeriki, N.º 81, de 11 de Outubro de 1883, pp. 2-3.


Usando o tradutor do Google, o texto diz o seguinte:

Os alunos da Universidade de Madrid, que recentemente deram um concerto em um clube de música, usam uma colher como emblema, como todos os alunos espanhóis.

Com esses ouvintes da universidade espanhola, que viajam fazendo música o ano todo, esse distintivo realmente parece significar que eles não têm colher para estudar.

sábado, 1 de maio de 2021

A TAUC no Brasil, 1925 - Fotos em periódicos brasileiros.

 A presença da TAUC no Brasil, em Agosto/Setembro de 1925 foi uma digressão apoteótica que encheu muitas páginas de periódicos lusos e brasileiros.

Com actuações no Rio de Janeiro, São Paulo, Santos, entre outros, a TAUC encantou por onde passou e encheu a alma a muitos emigrantes, já lá vão quase 100 anos.

Referir, en passant, que, nessa mesma altura, a TAUC se cruzou com o Orpheon Académico de Lisboa, também em digressão por terras de Vera Cruz, com quem partilhou o palco em diversas ocasiões.

Deixamos aqui um breve testemunho iconográfico encontrado nos periódicos brasileiros.

O Globo, Ano 2, N.º 21, de 13 de Agosto de 1925, p.1.


Correio da Manhã (RJ), N.º 9378, de 23 de Agosto de 1925, p. 3.

Jornal do Brasil (RJ), Ano XXXV, N.º 202, de 23 de Agosto de 1925, p. 7.

O Paíz (RJ), Ano XLI, N.º 14917, de 23 de Agosto de 1925, p.1.

Universal (RJ), N.º 34, de 26 de Agosto de 1925, pp. 32-33.

Universal (RJ), N.º 34, de 26 de Agosto de 1925, p. 34.

Universal (RJ), N.º 34, de 26 de Agosto de 1925, p. 35.

Vida Doméstica (RJ), N.º 93, de Outubro de 1925, p. 31.
A Vida Moderna (SP), Ano XXI, N.º 501, de 29 de Agosto de 1925, p. 5.


Fon Fon (RJ), N.º 35, de 29 de Agosto de 1925, p. 30.

Fon Fon (RJ), N.º 35, de 29 de Agosto de 1925, p. 31.
Fon Fon (RJ), N.º 35, de 29 de Agosto de 1925, p. 32.
Fon Fon (RJ), N.º 35, de 29 de Agosto de 1925, p. 33.


Fon Fon (RJ), N.º 35, de 29 de Agosto de 1925, p. 34.

Illustração Moderna (RJ), Ano 2, N.º 65, de 29 de Agosto de 1925, p. 32.

Illustração Moderna (RJ), Ano 2, N.º 65, de 29 de Agosto de 1925, p. 33.

O Careta (RJ), N.º 897, de 29 de Agosto de 1925, p. 26.

O Careta (RJ), N.º 897, de 29 de Agosto de 1925, p. 27.

 Universal (RJ), N.º 36, de 09 de Setembro de 1925, p. 31.

A Noite (RJ), Ano XV, N.º 4964, de 16 de Setembro de 1925, p. 8.

A Vida Moderna (SP), Ano XXI, N.º 502, de 18 de Setembro de 1925, p. 17.


O Globo, Ano I, N.º 57, de 23 de Setembro de 1925, p.1.

Revista da Semana (RJ), N.º 40, de 26 de Setembro de 1925, p. 21.

Jornal do Brasil (RJ), N.º 233, de 29 de Setembro de 1925, p. 13.

Correio da Manhã (RJ), N.º 9378, de 30 de Setembro de 1925, p. 8.


O Social, Ano IX, N.º 406, de 15 de Outubro de 1925, p. 8.

Revista de Semana, N.º 41, de 03 de Outubro de 1925, p. 25.

Vida Doméstica (RJ), N.º 93, de Outubro de 1925, p. 29.

Vida Doméstica (RJ), N.º 93, de Outubro de 1925, p. 30.


Revista de Pernambuco, Ano 2,  N.º 17, de Novembro de 1925, p. 65.





segunda-feira, 12 de abril de 2021

Filarmónicas Vs Orquestras de Plectro (Estudantinas, Tunas...)

 

Encontramos coisas assaz curiosas, nisto de investigar em periódicos e revistas antigas.

Desta feita, numa publicação brasileira de inícios do séc. XX,, demos de caras com um artigo em que o autor enaltece as virtudes das filarmónicas em detrimento de orquestras de plectro (como as tunas e afins) que considera de menor relevo, qualidade e virtude musical.

Historicamente, todo este tipo de orquestras pertence ao grande movimento orfeónico. E se é verdade que as filarmónicas tiveram um papel essencial na democratização e ensino da música, não é menos verdade que as tunas/estudantinas, e demais orquestras de plectro, foram um movimento tão ou mais importante nesse processo.


Revista do Brasil, Ano V, N.º 14, de 30 de Dezembro de 1909, p. 59.

Revista do Brasil, Ano V, N.º 14, de 30 de Dezembro de 1909, p.61
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

TUNAS na Revista FÓRUM ESTUDANTE, 1996

- Tradições Académicas  - 

Edição Especial da FÓRUM ESTUDANTE, 1996.



Deverão ser muitos os que ainda se lembram deste famoso exemplar (e o terão em casa), com uma tiragem de 30.000 exemplares, publicado em 1996 sob o título pomposo de "Tradições Académicas", e que reservou umas quantas páginas a Tunas que hoje aqui se partilha.

Creio que nenhuma outra revista terá dedicado tanto espaço e dado tanta atenção ao fenómeno numa edição deste tipo.

A Tuna gozava, nessa altura, de um verdadeiro estado de graça, suscitando enorme interesse por parte da sociedade e meios de comunicação social - um ganho que não se soube capitalizar.

Para os mais saudosos, para os que terão nascido nessa altura (ou, até, nesse mesmo ano) e para as gerações mais novas, aqui fica, recuperado do meu acervo.












quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

Investigação Tuneril - Uma tarefa de, e para, todos.

É certo que, nos últimos 20 anos, a investigação tuneril deu um enorme salto e garantiu a maioridade, com uma profusa produção de obras sobre a Tuna (em termos historiográficos) e sobre tunas (na vertente biográfica).

Nas últimas duas décadas, em termos de historiografia tunante, passou a imperar um critério de rigor e de metodologia investigativa já não compaginável com pseudo-estudos polvilhados de ideologias e narrativas ficcionadas, onde os autores moldavam e talhavam os factos à medida das suas próprias crenças (pese embora ainda haver disso, nomeadamente em Espanha).

Mas está ainda muito por fazer.

No estrito caso português, e apesar do trabalho meritório e ímpar traduzido na obra "Qvid Tvnae?", é virtualmente impossível chegar a todo o lado - mesmo sendo Portugal um país geograficamente pequeno.

Lamentavelmente, grande parte dos fundos e arquivos locais não está acessível à distância (falta de medidas políticas e investimento subsequente) - e muitos desses fundos e arquivos nem digitalizados estão. Nesse ponto, vivemos verdadeiramente na cauda da Europa.

Se mais não sabemos sobre a nossa história tuneril, não é apenas por este tipo de questões técnicas, mas por uma enorme falta de mobilização da comunidade tunante para estas questões. 

A preservação e valorização do património e  tradição tuneril é algo que, quase sempre, serve apenas de chavão para "inglês ver". As Tunas não podem preservar e defender uma tradição que desconhecem (estando mais aptas, portanto, a desvirtuar o que dizem promover). Chega a ser caricato que os protagonistas, os que militam e exercem o mester tunante, sejam, grosso modo, tão ignorantes sobre o fenómeno como outro qualquer leigo, alheio às Tunas.

Neste últimos 20 anos, foram produzidas diversas obras biográficas sobre tunas, mas salvo a lançada pelo João Paulo Sousa, em 2001[1], nenhuma das demais procurou sequer urdir uma introdução histórica que trouxesse a lume alguns aspectos históricos das tunas que outrora existiram na sua geografia local. As Tunas não nasceram na década de 1980, e muito menos a "tradição" se resume àquela que cada um bebeu empiricamente, absorveu "de ouvido" ou, pior, decidiu inventar com base no "achismo".

Se em cada localidade onde há uma Tuna, alguém tivesse tido a boa ideia de fazer alguma pesquisa histórica, teria certamente suprido a evidente impossibilidade de algum investigador de Faro conseguir aceder a informações sobre Braga (ou alguém de Viana poder consultar acervos em Beja).


Difícil, mesmo impossível, portanto, urdir um estudo mais completo da Tuna portuguesa (em termos de pormenor), quando os que a isso se propõem são poucos e não têm, obviamente, o dom da ubiquidade.

Complicado, dadas as limitações técnicas, aceder a acervos que não foram digitalizados e partilhados na web (apesar de já haver muita coisa).

Ainda assim, já muito se conseguiu desde o lançamento do "Qvid" em 2011-12 (e ampliará substancialmente a dimensão da sua nova versão)[2], mas o que demora uma década a fazer-se seria em muito encurtado ou, então, teria produzido muito mais dados, se mais gente houvesse com gosto em saber (descalçando os  cómodos chinelos).

Mas mesmo no que respeita a fontes ao alcance de um click, os investigadores deparam-se com uma titânica tarefa de busca.

Ao contrário do que sucede com outros acervos online, quase tudo o que existe digitalizado em Portugal não permite pesquisa por palavras, pois essa digitalização omitiu o reconhecimento OCR e não foram criados motores internos de busca. Tal obriga, na prática, a ter de ler tudo de fio a pavio, materializando-se a empreitada no ditado "procurar uma agulha num palheiro".

E quando são poucos a empreender investigação, tudo leva anos e anos, porque uma mão de pares de olhos não dá conta de algo que precisaria de mais implicados, de muitos mais olhos, distribuídos geograficamente.


Visitar o arquivo ou hemeroteca local é um exercício simples. Pedir para consultar jornais antigos, tomar notas e/ou tirar fotos de dados encontrados e registar cronologicamente o que se encontra não é tarefa complicada, se o âmbito da pesquisa for muito localizado geograficamente (mais ainda se, colaborativamente, dividirem a tarefa com mais 2 ou 3, distribuindo limites cronológicos).

Mas imaginem ter de fazer isso para um país inteiro, ao largo de mais de 100 anos, com apenas uma mão cheia de pessoas (e, ainda, abarcar outros territórios). 

O desafio é simples: quando decidirem publicar uma obra biográfica sobre a vossa tuna, procurem enriquecê-la com uma introdução histórica que recupere a memória passada da vossa cidade/região, ofereçam aos leitores algo mais, algo que, muitas vezes, será uma descoberta inédita e conferirá outra importância ao que apresentam.

Para que, no futuro, outros tratem esta nossa época com rigor, cuidado e carinho, convirá que demos esse mesmo exemplo, deixando-o como testemunho aos vindouros. Uma tarefa que é de todos, tanto mais quanto seja feita para todos.



[1] A obra "10 Anos de Infantuna", inseriu, num capítulo introdutório de  10 páginas, uma contextualização histórica onde apresenta dados de uma investigação feita a jornais antigos, trazendo à tona notícias de uma Tuna Académica de Viseu de finais do séc. XIX.

[2] Para além das investigações do grupo CoSaGaPe, há a salientar o trabalho de Rui Marques, resultando numa Tese de Doutoramento em Etnomusicologia dedicada à Tuna em Portugal

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

O Ano Tuneril de 2020 em revista.

 

Começo este artigo de opinião relembrando as palavras de João Paulo Sousa que, no antigo fórum do PortugalTunas (já lá vai uma boa década), falava na necessidade de um ano sabático de festivais, para separar o trigo do joio  e fomentar uma reflexão mais crítica sobre o(s) caminho(s) que a Tuna estava a seguir.

Nunca se pensou foi que tal viria por força de uma pandemia que deixou o nosso mundo virado do avesso.

Sempre subscrevi, a par com tantos outros, essa ideia que a "festivalite", apesar de trazer ganhos (melhoria global da qualidade musical), também sufocaria um pouco a própria Tuna na sua ligação  à sociedade, e a tornaria demasiado dependente da efémera premiação (afunilando discernimentos e fechando a Tuna sobre si própria).


Este ano de 2020 foi, por força das circunstâncias, um ano que marcará a história da humanidade e, consequentemente, a do fenómeno tuneril.

As Tunas viram-se impossibilitadas quer de festivais, de iniciativas várias, quer do convívio em ensaios e outros contextos.

Há quem veja isso como algo negativo, eu vejo-o como uma oportunidade para mudar as coisas, reflectir e pensar melhor o que se tem vindo a fazer. "Não há males que não venham por bem", diz o ditado, se soubermos, de facto, tirar o melhor partido desta janela de oportunidades que, espero, tenha obrigado muito boa tuna a planear diferente, a planear melhor e, sobretudo, a valorizar o essencial.

Os aspectos negativos desta pandemia são sobejamente conhecidos. Sejam os aspectos do nosso quotidiano, os problemas da nossa economia, questões de emprego (sobretudo da sua perda) e, acima de tudo, as perdas humanas que, mais de perto ou não, nos tocaram.

No mundo tuneril, o maior impacto (mais visível, visto de fora) registou-se sobretudo na questão dos certames. Mas, bem vistas as coisas, também não se perdeu assim tanto, se pensarmos, com honestidade, que as tunas não podem estar dependentes nem resumir a sua existência a tal aspecto (porque se for o caso, então é que não se perdeu mesmo nada, muito pelo contrário).

A maior perda foi sobretudo o contacto inter-pessoal, o convívio, o escape que a Tuna propicia, a possibilidade de desenvolver muitas outras acções e actividades que vão além da cegueira da "festivalite". Nesse ponto, as Tunas, como tudo o resto, sofreram imenso; e mais ainda com a perda irreparável do Paulo Cunha Martins (o "Paulão") da Estudantina Universitária de Coimbra, uma das figuras mais icónicas da nossa comunidade e da história tuneril portuguesa dos últimos 40 anos.

Não esqueço, igualmente, que muitas tunas não puderam comemorar efemérides importantes da sua história (os seus 25 ou 30 anos)[1], algumas com programas ambiciosos e sempre importantes para a preservação da memória, assim como a edição do ENT,, previsto para Braga (e a cargo da Tuna Universitária do Minho).



Mas este ano de 2020 não se quedou por todos esses aspectos negativos e nem tudo foi choro e ranger de dentes.

Durante esta pandemia, floresceram inúmeras iniciativas que mostraram que as Tunas também se sabem reinventar e adaptar, que (algumas) o sabem fazer com criatividade e bom gosto, transformando este tempo numa antecâmara de uma renovada projecção e/ou reconfiguração.

Nestes meses que passaram, assistimos ao recuperar de muitas memórias, com publicação de vídeos e fotos inéditas (sobretudo em Espanha), ao fomento de encontros online que permitiram que, cada tuna (as que o fizeram), desse maior espaço às relações pessoais (sem o constrangimento de um calendário de ensaios e actividades que, por vezes, tolhe esse espaço mais descontraído de diálogo), mas igualmente a "novas" metodologias de trabalho/ensaio, optimizando os actuais recursos tecnológicos.

Em termos nacionais, destacam-se algumas iniciativas impactantes, começando por apontar aos vídeos musicais (as "quadrículas") que muitas tunas foram produzindo (com especial referência ao vídeo da Estudantina de Coimbra - com honras de telejornal) e ajudaram, numa primeira fase, a potenciar a imagem das Tunas.

Também de salientar o documentário "Vontade de Ser - 25 Anos", referente à TUIST (Tuna do Instituto Superior Técnico de Lisboa).

Haveria alguns outros vídeos de interesse, mas seria fastidioso a todos enumerar (mesmo se não são assim tantos, de jeito, que pudessem sê-lo), completando o vasto lote, uma quantidade apreciável de "quadrículas" que nasceram como cogumelos.

Claro está que, a partir de determinada altura, foi pior a cura que a doença, e rapidamente se passou de uma boa dose de Tuna (com excelentes apontamentos) para um enfartamento ad nasea (repetindo a fórmula que, em finais dos anos 90, se registara com a presença algo "anárquica" de tunas na TV) de "musiquinhas aos quadradinhos" algumas sem qualquer filtro crítico de qualidade.

Na verdade, muito daquilo a que assistimos na net, feito com a melhor das intenções (não duvido), redundou num tiro no pé, já que, em muitos casos (não todos, evidentemente), serviu mais como "prova de vida" do que como prova de vitalidade, como se a existência da Tuna dependesse de likes virtuais.

Seja como for, é necessário, também, colocar as coisas em contexto, e o contexto foi propício a tudo isso: a coisas muito boas e ao seu reverso.

Dentro das iniciativas muito boas, temos necessariamente de colocar o trabalho estóico do PortugalTunas que, a partir de finais de Março, estreia o seu canal televisivo no youtube, com emissões regulares do seu famoso programa "Tunices" (a par com o programa "Tuna Portugal"), e sobre o qual já aqui se tinha dado um primeiro eco.

É de se lhe tirar o chapéu e render a justa homenagem aos seus dois timoneiros: Ricardo Tavares (porventura a mais relevante figura tuneril, em Portugal, desde o "boom") e José Rosado (também uma das maiores referências da nossa praça).

O PortugalTunas TV fez o que mais ninguém conseguiu fazer (nem teria, creio, bagagem e saber para fazer), e que foi "entreter-nos" com uma programação de qualidade (mesmo se, amiúde, houvesse uma ou outra emissão menos interessante) que ajudou, até certo ponto, a fazer esquecer a inactividade forçada da comunidade e foi contributo inestimável para a formação e informação.

Tenho necessariamente de destacar a 1.ª temporada, porque a mais concorrida, a que reuniu (por força da disponibilidade existente à época) um casting mais rico e diversificado, e propôs temas mais "sumarentos".


Uma pedra no charco e um anti-depressivo como nenhum outro (chegando a ter, no início, 3 emissões semanais), fruto da qualidade e saber do Tavares e do Rosado (mais tarde secundados por outros colaboradores).

A 2.ª temporada, também por força das circunstâncias, foi, quanto a mim, menos conseguida (há vários motivos que a isso concorrem), mas essencial neste processo de maturação e consolidação de um espaço e formato que marca indelevelmente a história da Tuna.

O "Tunices"[2], e demais rubricas e programas promovidos pelo PortugalTunas TV, é um legado ad aeternvm, constituindo-se, também, como documento histórico incontornável que se pode revisitar no canal em causa.

Só isso bastaria para fazer pender o prato da balança do ano 2020 para o lado positivo.

Similar, mas noutra vertante, tivemos igualmente as emissões, via Facebook, do "Quarentunos em quarentena", promovidas pela Tuna Veterana da Universidade Portucalense, e conduzidas pelo Paulo Saraiva e Adélio Silva, propondo temas mais "inside" (no contexto das quarentunas e tunas de veteranos), e que merecem, também, nota positiva como mais uma alternativa para preencher os dias de confinamento.

Mas, por cá ainda, outras iniciativas tiveram a sua relevância (e não só de mundo virtual se viveu); e embora pontuais, foram, dentro deste tunantesco deserto quaresmal que vivemos, de grande valia (e sê-lo-iam, mesmo sem pandemia): falo de um festival, de um livro e de um CD.

Começo pela edição presencial do XXXIV FITU do Porto, único certame que de facto ocorreu durante a pandemia, em Portugal, e que, com todos os caldos e cautelas (e muitas limitações), teve lugar nos jardins do Palácio de Cristal.

Só o facto de ter sido realizado, é, per si, um feito ímpar, conseguindo aliar uma janela temporal propícia com um trabalho meritório do OUP e da direcção da TUP (e abertura sensata das instituições públicas).

A outra iniciativa foi a da publicação do livro "A Tuna nas Trincheiras da Grande Guerra (1914-1918)" (com download gratuito em Pdf), embora tenha sido algo secundarizado[3], até por quem não devia. Uma obra que aborda um contexto geográfico e histórico até agora inexplorados, trazendo dados e factos inéditos que alargam os horizontes geográficos do fenómeno tuneril.

Já mais no final deste ano, e para terminar, referir o lançamento de um novo trabalho dicográfico da Azeituna, com o CD "Azul", prova da vitalidade que caracteriza o grupo (sendo a Tuna com mais trabalhos editados em Portugal[4]).

A nível internacional, há a destacar, para começar, a publicação, num exemplar, dos n.º 6 e 7 da revista "Legajos de Tuna" (juntando a edição de Dezembro de 2019 com a de Junho de 2020).

Depois, temos o início formal das actividades da associação internacional TUDI (Tunos Decanos de Iberoamérica), com um ciclo de conferências (também disponíveis no seu canal de youtube) que abordaram a história e evolução da Tuna na sua diáspora (a cargo de um painel de tunólogos reconhecidos), mais tarde seguida de um conjunto de emissões de cariz "inside" com a designação "TUDI Live" (sem grande relevância e interesse para o grande público, diga-se, já que de consumo interno dos membros da associação).

Outro feito notável foi o lançamento da obra "História Completa de las Tunas y Estudiantinas de Cataluña, siglos XIX e XX)" de Rafael Asencio González e José Mateo Ycardo. Uma obra com 6 centenas de páginas, tão densa quanto rica e de grande qualidade, que minuciosamente apresenta toda a história do fenómeno naquela região autónoma.

Do outro lado do charco, a Radio Folclor de Chile, levou a cabo algumas emissões dedicadas à Tuna, sob a designação "Tunos de Chile y el mundo", embora sem grande rigor histórico e com narrativas ainda muito contaminadas.

Também na esfera tuneril mundial (hispano-americana, para sermos precisos), muita da actividade passou pelas redes sociais e pela video-conferência, com especial destaque para os "conversatórios/charlas"  e para os encontros/certames (com base em vídeos pré-gravados e editados ou em vídeos já existentes, repescados ao youtube).

Globalmente (e abarcando também Portugal), penso ter sido a opção menos bem conseguida, cuja qualidade foi não apenas discutível, como ainda mais discutível o uso de vídeos já existentes na net como forma de participação.

Mesmo com coisas preparadas, gravadas e editadas para o efeito, perde-se da espontaneidade, de alguma veracidade que a performance presencial implica. Seria quase como fazer um certame com base em discos editados[5].

Há, de facto, aspectos da prática tunante que não são passíveis de formatos online, e não cabe o argumento que "é melhor isso que nada", pois a reboque desse tipo de falácia, promove-se a mediocridade e se banaliza todo o processo (e, contrariamente ao que alguns possam pensar, não massifica nem promove exponencialmente a Tuna junto da sociedade).

Uma "batota" que se compreende, pela necessidade de contornar e dar a volta à situação, mas também expressa a tal dependência de festivais e deixa a pálida imagem que a Tuna quase resume a sua existência a festivais.

O que ficou provado é que muita da vida tuneril passa pela net. Já passava antes, mais passou agora. E é por isso imperativo que se tenha conseguido, neste tempo de "paragem", reflectir seriamente também naquilo que se anda a produzir para consumo, na imagem que se pretende dar por esses meios (revisitáveis e muito mais facilmente "virais"), desde logo apostando num maior critério de qualidade e ponderação sobre vídeos que se colocam na web[6], reflexão aliás aqui já feita (em 2016) e, de certa maneira, reforçada no programa do "Tunices" (com o saudoso Paulão), dedicado à "Tuna nos Media/Internet - Produção de palco nos eventos Tuneris".


Contas feitas, e face aos verdadeiros dramas que esta pandemia causou na sociedade, a vida tuneril ter sofrido este forçado ano sabático é de irrisória monta, pois que, infelizmente, há quem tenha verdadeiras e legítimas razões para se queixar, quem tenha sofrido verdadeiros dramas e perdas irreparáveis, em razão do Covid-19.

Quero acreditar que algum joio tenha finalmente claudicado e que aquilo que é de cepa resista e consiga marcar a diferença; que se faça melhor - ao invés do costumeiro e atabalhoado "mais" ou "muito", de forma a reencaminharmos a Tuna para o essencial, reabilitando o seu prestígio junto da sociedade (que não apenas o nicho de público já afecto).


A toda a comunidade tuneril ficam os votos de um feliz e próspero ano de 2021, cheio de saúde, de alegrias e de uma renovada vitalidade.

 



[1] Embora tenham tido o devido destaque, em várias emissões do "Tunices", já que o PortugalTunas, e muito oportunamente, trouxe a terreiro as tunas que comemoravam os seus 30 anos.

[2] Houve quem quisesse imitar esse tipo de formato, mas sem o know how e a necessária qualidade e elevação que tal iniciativa pressupõe, redundando num fiasco (e por isso não passou das primeiras emissões).

[3] Não mereceu, pelo menos, o devido tratamento e "prime time", quando comparado a outras "parangonas efémeras", quedando-se em mera referência "en volant".

[4] Vd. página Facebook do Museu Fonográfico Tuneril.

[5] Ainda ninguém se lembrou de fazer uma palermice destas: um concurso de discografia.

[6] Que resultam de uma deficiente e pouco cuidada captação e tratamento, contribuindo para uma péssima imagem e publicidade das tunas.