Questão da preservação da memória é, como o leitor atento bem sabe, uma preocupação constante.
Por diversas vezes, já, quer em artigos[1] quer em
palestras[2],
levantei essa questão do pouco ou nenhum cuidado que as nossas Tunas têm em reunir,
catalogar, preservar e divulgar o seu património histórico.
Essa questão volta à baile, desta vez a propósito dos
espólios fotográficos e dos álbuns que as tunas tão orgulhosamente apresentam
nas suas páginas online (especialmente no Facebook[3]), mas
amputados de informação.
Com efeito, ao passarmos os olhos pelas dezenas e
dezenas de páginas de tunas/estudantinas, quase temos a impressão de que todas
elas nasceram fotograficamente nos últimos 20 anos (e até menos). Mesmo tunas com mais de 3 décadas de
existência revelam-se paupérrimas nesse capítulo. Uma ou outra ainda apresenta
um “álbumzito” com fotos antigas, quase sempre sem legenda, sem datação, sem
nada. Uma espécie de miscelânea de coisas enfiadas para canto a apanhar pó.
Isso revela não apenas desrespeito pela sua própria
história, por quem os antecedeu, mas igualmente falta de visão em termos de promoção
e valorização do grupo.
Para os investigadores, então, é o deserto quase total.
Em cerca de 40 anos de fenómeno tuneril surgido do “boom” dos anos 1980-90,
estamos, hoje (em 2026), perante falta de informação iconográfica essencial e
que pode vir a perder-se irremediavelmente[4].
A fotografia é uma fonte documental riquíssima e primordial
par ailustrar a história do fenómeno tuneril e todos, todos os membros da
comunidade tunante (de ontem e de hoje) deveriam sentir-se implicados no
cuidar, preservar e no manter acessível a informação histórica da sua Tuna, a
qual não se resume a milhares de clichés ad hoc de um determinado momento, mas
em manter registos de qualidade ao longo dos anos, desde a fundação.
Quando as tunas depois se queixam por que razão determinados
artigos, trabalhos ou livros não apresentam fotos do seu grupo… a resposta é
simples: porque não as têm acessíveis e identificadas online e/ou nem sequer
colaboram quando se pede tal urbi et orbi[5].
A questão de preservação da memória, do património
tunante, não é questão de somenos. Os dados, os documentos, as memórias, as fontes,
os protagonistas….. devem ser estimados, valorizados e preservado o legado e
riqueza desse testemunho temporal, porque sujeito à erosão irrevogável do
passar dos anos.
[1] Cancioneiro
Tunante português - Uma inexistência (artigo de 2 Abril 2007)
O Efémero
Tuneril (artigo de 2 Agosto 2019); Investigação
Tuneril - Uma tarefa de, e para, todos (artigo de 28 Janeiro 2021)
[2] Vd. X ENT (Encontro
Nacional de Tunos) - O ACESSO, SELECÇÃO E RIGOR DA INFORMAÇÃO SOBRE A TUNA - 1º
PAINEL: Que fontes e informação existem? Serão credíveis? (2025); TUNA PORTUGAL 17 - A
Preservação da Memória Tuneril (2021)
[3] Única plataforma que permite organizar informação em
secções, álbuns, categorias.
[4] Ou, em muitos casos, esse mesmo espólio deixar de ser
catalogável porque se perdeu a memória da datação e contexto dos itens.
[5] Não poucas vezes, como se tem observado, porque vivem
demasiado fechadas sobre si mesmas, até mesmo em termos de redes sociais
(ignorando espaços como o PortugalTunas, o Tunas&Tunas, etc.). Há uns anos,
foi ver a falta de adesão para repertoriar as tunas nacionais (que resultou,
ainda assim, na obra QVOT
TVNAS?, a qual apresenta uma margem de omissões reduzidíssima)
